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Por Gabriel Borges Souza/Imagem: Arquivo pessoal do autor

Ao transitarmos pelo vaivém das ruas do já histórico bairro de São Brás, deparamo-nos com edificações que se tornaram emblemas da cidade de Belém. Próximo ao Terminal Rodoviário, onde outrora se situava a extinta estação da Estrada de Ferro Belém–Bragança, encontram-se praças bem conhecidas da população belenense: a Praça do Operário, tradicional ponto de encontros e despedidas, e a Praça da Leitura, onde está situado o Memorial Magalhães Barata, popularmente conhecido como “Chapéu do Barata”, que atualmente, após reformas, abriga uma Estação Cidadania administrada pelo governo do Estado.

Completando a “trinca” que compõe o conjunto arquitetônico do bairro de São Brás (sem mencionar a famosa Caixa d’Água), está a Praça Floriano Peixoto, que abriga uma das edificações mais simbólicas da cidade de Belém: o Mercado de São Brás. Recentemente revitalizado, o Mercado tem chamado a atenção não mais por sua beleza, mas por questões que envolvem os novos rumos de seu uso ou de seu “desuso”.
Há mais de seis meses com a revitalização concluída, o Mercado de São Brás ainda não foi entregue, de fato, à população. E não só isso: trabalhadores de diversos ofícios — das boieiras aos feirantes — ainda não foram realocados em seus devidos locais de trabalho, dentro e fora do complexo do mercado,
permanecendo em um galpão provisório onde estão desde meados de 2023.

Vista panorâmica do Mercado de São Brás e da Praça Floriano Peixoto sem a grade. Fonte: Print de tela do documentário “Batalha de São Bráz”, por Adrianna Oliveira/Marahú Filmes.

Ademais, nas últimas semanas, uma nova pauta emergiu nas redes sociais, provocando debates acalorados. A implementação de uma grade ao redor da Praça Floriano Peixoto, circundando o espaço público e a edificação, dividiu opiniões entre os moradores de Belém. A grade, símbolo do privatismo, parece deixar um recado silencioso e sutil, que acompanha os novos rumos que se pretende dar não apenas ao Mercado de São Brás, mas também à Praça Floriano, sobretudo se atentarmos aos anúncios que, pouco a pouco, vêm sendo feitos acerca dos restaurantes e bares sofisticados que o mercado irá abrigar.

Mais uma vez, o choque entre o público e o privado vem à tona — este último defendido por aqueles que acreditam que as grades, com cerca de 1,50 metro, protegerão o prédio e a praça de possíveis depredações. E não só disso: das chamadas “classes perigosas” que, há décadas, ocupam as redondezas do bairro e evidenciam o contraste social gritante presente em suas ruas. Creio que, sobre o assunto, cabem algumas breves reflexões. Em primeiro lugar: a Praça Floriano Peixoto foi, historicamente, palco de grandes manifestações sociais e políticas, caso da luta estudantil pelo direito a meia passagem, por exemplo. Além disso, como espaço público, o local sempre foi um logradouro ocupado por capoeiristas, skatistas e integrantes do movimento Hip Hop — entre MC’s, B-Boys e B-Girls — que ali exerciam sua coletividade.

Skatistas conversam na Praça Floriano Peixoto, espaço de coletividade. Fonte: Print de tela do documentário “Batalha de São Bráz”, por Adrianna Oliveira/Marahú Filmes.
A Praça Floriano Peixoto é palco para o Breakdance desde os anos 90. Fonte: Print de tela do documentário “Batalha de São Bráz”, por Adrianna Oliveira/Marahú Filmes.

Para além da intenção de evitar possíveis atos de vandalismo e depredações, será que as grades não foram fincadas para se fecharem à coletividade destes grupos? Em segundo lugar: ao falar das pessoas em situação de vulnerabilidade social, é de conhecimento comum que, década após década (sob governos de “direita”, “esquerda” ou “centrão”), a municipalidade jamais se dispôs a pensar, muito menos a efetivar, uma política pública que desse conta dessas pessoas que estão à margem da margem. Pelo contrário: o eugenismo social prevalece, com grades e truculência impondo a expulsão de corpos vulneráveis sabe-se lá para onde.

Na Belém que está maquiando para um grande evento, torna-se perceptível que o ambiente foi pensado como mais um espaço turístico para a COP30, que deve atender à demanda do capital. Nesse sentido, o Mercado de São Brás e a Praça Floriano Peixoto, com seus possíveis novos usos e desusos, parecem estar deixando para trás seus signos históricos de espaço popular e coletivo para construir outros novos. Cabe-nos saber para quem. Refletindo sobre o belo ensaio intitulado Casa, Praça, Jardim e Quintal, escrito pelo saudoso filósofo belenense Benedito Nunes (1929–2011), penso que o Mercado de São Brás e a Praça Floriano Peixoto, gradeados ou não, devem seguir como espaços que abrigam as coletividades, onde o feirante trabalha, as crianças brincam, os casais namoram, entre outras inúmeras possibilidades que o espaço público oferece. E torço para que ambos sigam sendo espaços para todos e todas, e não se tornem apenas um jardim que os abastados ocupam e apreciam, enquanto nós, o povo, ficamos olhando de fora, pelas frestas da grade.

Gabriel Borges Souza é doutorando em História Social da Amazônia pela Universidade Federal do Pará (PPHIST-UFPA), pai e morador dos “covões de São Brás”. 

Os print’s de tela do documentário “Batalha de São Braz” tiveram autorização para reprodução concebida por Adrianna Oliveira no dia 22/07/2025.

Uma resposta

  1. Ótima análise, amigo, as dinâmicas do capital se reproduzem e perpetuam a “limpeza” de espaços públicos conhecidos pela atuação do popular. Esperamos que a gentrificação não apague dos espaços públicos o que há de mais valioso na cidade, sua identidade. A cultura é a sede da alma e da honra da nação, já dizia Ariano Suassuna

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