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Por João Polaro/Imagem: reprodução

Inaugurado em 21 de abril de 1970, o Palácio do Itamaraty se consolidou como uma das joias da diplomacia brasileira. Projetado por Oscar Niemeyer e com paisagismo de Burle Marx, expoentes do modernismo nacional, o edifício em estilo brutalista abriga um valioso acervo transferido do antigo Itamaraty, no Rio de Janeiro. Após 55 anos de existência, chama atenção o estado exemplar de conservação do Palácio, sem alterações que comprometam sua integridade – realidade que contrasta fortemente com a situação dos palácios históricos sob responsabilidade da Prefeitura de Belém.

Nesse sentido, o Itamaraty é mais do que sede administrativa: é um espaço simbólico que cumpre com excelência sua função de representar a diplomacia brasileira. O edifício permaneceu praticamente inalterado desde sua inauguração, revelando o cuidado e o respeito dos gestores pela concepção original. Para atender a novas demandas, em vez de descaracterizar o espaço, construiu-se anos mais tarde um prédio anexo, garantindo a funcionalidade sem comprometer a preservação do patrimônio tombado.

Na contramão do exemplo dado pelo Palácio do Itamaraty, a Prefeitura de Belém é responsável por três espaços de grande valor histórico e artístico – o Palacete Pinho, o Palacete Bolonha e o Palácio Antônio Lemos, sede da própria Prefeitura – que poderiam, igualmente, ser preservados como símbolos da cidade. No entanto, a gestão municipal tem reiteradamente maculado essas edificações. Em vez de consolidá-las como centros museais vivos, preservados e abertos ao público, os transforma em espaços de uso burocrático, sem relação direta com a conservação ou difusão cultural. O que poderia funcionar como vitrine da importância arquitetônica e artística de Belém transmite hoje uma sensação de abandono e ameaça de fechamento definitivo.

O caso mais recente é emblemático: o Palacete Pinho, cuja destinação inicial celebrava sua abertura ao público e a guarda do acervo de Bruno de Menezes, acabou frustrando expectativas. O espaço não se consolidou como museu e, de forma ainda mais preocupante, o acervo foi devolvido. Hoje, o edifício abriga uma secretaria municipal, em flagrante desvio de função. O que deveria ser um centro de memória transformou-se em ambiente tecnocrático, ilustrando a lógica de desvirtuamento que paira sobre o patrimônio histórico da cidade. Esse processo não apenas frustra a comunidade, mas também revela uma concepção estreita de gestão: o patrimônio cultural é tratado como um obstáculo a ser ocupado, e não como um ativo estratégico de identidade, educação e desenvolvimento urbano.

Quatro meses após o intenso alvoroço nas redes sociais e a fala contundente do professor João de Jesus de Paes Loureiro sobre a perda da sala expositiva Armando Bolloni – convertida para fins administrativos alheios à atividade museal do Museu de Arte de Belém (MABE) – a gestão municipal recuou diante da pressão. O episódio se tornou emblemático: de um lado, evidencia a atual percepção equivocada da Prefeitura sobre o papel de seus museus; de outro, demonstra a capacidade de mobilização da comunidade em rejeitar iniciativas que fragilizem esses espaços. No entanto, esse caso é apenas uma gota em um oceano de práticas recorrentes. O Palacete Bolonha, sede da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (SEMCULT, ainda lembrada pelo nome histórico de FUMBEL), segue a mesma lógica de sufocamento: espaços originalmente destinados à vivência museal estão sendo ocupados por funções administrativas, restando apenas um núcleo voltado ao educativo patrimonial, insuficiente diante da necessidade urgente de uma política museal estruturada e efetiva.

O contraste entre a preservação exemplar do Itamaraty e a instabilidade dos palácios históricos de Belém revela mais do que escolhas administrativas: evidencia visões distintas sobre o papel do patrimônio cultural. Enquanto em Brasília o palácio modernista é mantido como símbolo de identidade nacional e memória diplomática, em Belém espaços equivalentes são fragilizados pela falta de planejamento museal e pela subordinação a interesses imediatos da gestão. A cidade, que poderia projetar seus palacetes como emblemas da riqueza arquitetônica e da vitalidade cultural amazônica, acaba transmitindo à população a sensação de abandono e ameaça. Reverter esse quadro exige reconhecer o patrimônio não como peso ou obstáculo, mas como ativo estratégico para a identidade, a memória e o futuro da capital paraense.

Sobre o autor

Pesquisador em políticas para o patrimônio cultural e museus. Mestre em Ciência Política pela UFPA, bacharel em Museologia e Relações Internacionais, dedica-se a investigar a relação entre Estado, sociedade e patrimônio cultural no Brasil.

Respostas de 2

  1. Parabéns João Polaro, é preocupante o destino de nossos museus municipais , não só na preservação de suas estruturas físicas e nos desvios de funções de suas dependências, mas também na situação dos mesmos de invisibilidade no organograma da Semcult. Urge essa luta para que consigamos evitar estes criminosos apagamentos .

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