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Por Kelvyn Gomes/Imagem: acervo projeto Memória e Cultura Periférica

Outro dia, estávamos em uma aula com a tia Cléia e ela nos perguntou: qual a comida que faz parte da nossa memória afetiva? Lembrei na hora do fígado acebolado que minha avó fazia. Depois que ela partiu, nunca mais comi. Pude ouvir também outras mulheres falando seus pratos do afeto: bolinho de farinha, vatapá, peixe… Cada uma trazendo, junto com o nome do prato, uma lembrança, uma saudade, um pedaço de história.

A formação Roteiro Cozinha Periférica reúne mulheres da Vila da Barca que cozinham com o corpo inteiro: mãos, olhos, cheiros e memórias. Mulheres que vendem seus pratos, sustentam suas famílias e guardam receitas que atravessaram gerações. Sabem o ponto do arroz só pelo som da panela. Sabem temperar o peixe com a mão e com o coração. Não aprenderam em escola formal, mas na prática, na escuta, na lida do dia a dia.Cada maniçoba, cada bolo de macaxeira, cada molho de pimenta é um pedaço do território — é o açaí da Vila da Barca que chega da Ilha das Onças, é o peixe que o vizinho pescador traz bem cedo, é o cheiro da baía misturado com o som da infância.

E o mais bonito é que esse projeto nasceu das mãos e das ideias de três jovens do bairro. Jovens que são da Vila da Barca e do entorno dela , que sentem na pele os desafios e as potências do território, e que decidiram sonhar junto com as cozinheiras uma formação que vai além da técnica — é afeto, é valorização, é ação política concreta.

Tenho lido Irmãs de Inhame, de bell hooks. Num dos trechos, ela escreve que muitas vezes pessoas negras são ensinadas a se enxergar apenas como vítimas, incapazes de moldar e determinar seus próprios destinos. Mas o que vejo nessas mulheres da cozinha periférica é justamente o contrário disso. Elas são autoras. Elas moldam, determinam e inventam caminhos com as próprias mãos. Com seus saberes, seus temperos, sua força cotidiana. O que bell chama de “autorecuperação” acontece ali, entre uma receita e outra — no reencontro com a própria potência.O Roteiro Cozinha Periférica não é só uma formação. É um caminho. Um processo de fortalecimento dos saberes que sempre nos mantiveram de pé. Porque, sim, quando uma mulher preta da periferia cozinha, ela está também alimentando a memória de um povo. Ela está dizendo: “eu existo, eu sei, eu sou capaz”.

Política também se faz com panela, com cheiro, com sabor. Política se faz quando a gente garante que nossos saberes não sejam apagados. Quando criamos espaços para que essas mulheres tenham reconhecimento, renda, respeito. E quando jovens do próprio território lideram processos que reafirmam nossas raízes, isso também é um jeito de reencantar o futuro.

Na Vila da Barca, cozinhar é mais que ofício. É a linguagem. É herança. É território. E é, sobretudo, luta. A cada prato servido, as mulheres do Roteiro Cozinha Periférica estão escrevendo uma nova página da nossa história. Uma história que começa no fogo baixo, mas termina em alta potência: a da cultura que alimenta e transforma.Porque, no fim das contas, o tempero também é ferramenta de mudança e nós estamos cozinhando o amanhã com as mãos bem fincadas na terra de onde viemos.

Uma resposta

  1. Excelente reflexão sobre a vida e sabores misturados em um local repleto de significados. Parabéns!

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