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Portal Jambu

Por Rafael Arcanjo*

A arte drag tem se consolidado cada vez mais como um expoente na indústria do entretenimento e seu crescimento pode ser observado na popularização de reality shows como o norte-americano RuPaul’s Drag Race, na área musical com grandes nomes como Pabllo Vittar, ou nos games, a exemplo da streamer Samira Close. Mas como essa arte se constrói aqui na Amazônia?

Com o objetivo de divulgar a arte drag do coletivo belenense Themônias, um projeto curricular da turma de museologia de 2019 completou na última terça, 23, uma semana de abertura no prédio anexo da FAV, no campus profissional da Universidade Federal do Pará em Belém. A exposição “Themônias: a Arte Drag na Amazônia”, com classificação indicativa de 12 anos, sobre o coletivo cultural de mesmo nome, funciona de segunda à sexta, das 9h às 17h, com exceção das quartas, onde o fechamento da exposição acontece às 19h. A entrada é franca e o evento vai até 30 de junho.

O Coletivo Cultural Themônias, existente desde 2014, é o centro da exposição construída pela turma de museologia, que pretende mostrar ao público partes da história e da importância do grupo. A curadoria do evento contou desde o começo com a participação de Alecson Castro, que performa a Shayra Brotero, e Juliano Bentes que performa a Skyssime, ambas Themônias.  Estão expostas no evento peças de roupas usadas pelas drags do grupo, uma réplica do camarim onde elas se montam e outras atrações ligadas ao coletivo. Vale a visita para conhecer mais!

Jomara Santos, discente de museologia e curadora da exposição, concedeu uma entrevista ao Portal Jambu esclarecendo mais sobre a exposição, o backstage e a programação para a próxima semana e para o mês de junho. Confira:

 

Qual a principal motivação que levou vocês a escolherem as Themônias como tema da exposição?

Bom, o nosso processo se dá desde o ano passado. A gente divide a turma em certo momento da disciplina, cada grupo escolhe um tema para tentar defender e em certo dia esse tema é votado, e o tema que ganhou a votação foi o tema Themônias: a arte drag na Amazônia. Inclusive foi meu grupo, eu e mais duas pessoas, que trouxe este tema. Algo importante é que o tema arte drag já havia sido escolhido por turmas anteriores, mas nunca venceu a votação, mas dessa vez deu certo e nós trouxemos ainda o recorte das Themônias, algo mais voltado à cena cultural de Belém.

 

Qual a agenda do evento?

No dia 31, próxima quarta-feira, vai começar uma oficina de maquiagem drag com a Celeste Volúpia, que é uma Themônia, aqui na exposição, das 14h às 15h. Vamos ter também uma palestra sobre ser Themônia, no dia 15 de junho, das 15h às 17h, no auditório da FAV.

 

O evento tem tido uma grande adesão da população universitária?

Desde a nossa abertura, nós já tivemos um público muito grande. Eu diria que foi um sucesso de público. E desde então ela tem sido bastante visitada nos horários da manhã, da tarde, nas quartas-feiras também que a exposição fica aberta até às 19h para justamente trazer esse pessoal que chega mais tarde aqui na UFPA.

 

A arte drag no Brasil tem se popularizado no Brasil, tanto pelos realitys quanto por outros fatores. Por que vocês escolheram as Themônias como tema para a exposição?

Quando pensamos no tema da arte drag, não conhecíamos as Themônias. Mas aí com uma breve pesquisa no Instagram nós achamos o perfil do coletivo (@panthemonias) e achamos muito interessante porque justamente por ser uma arte mais voltada para o cenário cultural de Belém, onde elas trazem toda essa questão da representatividade amazônida, falam sobre questões climáticas, regionais, sustentabilidade. Tem uma drag, a Sarita, que a montação dela é baseada na reciclagem e isso é muito importante de se trazer para a discussão da arte drag, por essas novas percepções artísticas trazidas pelas Themônias para o que nós conhecemos sobre essa arte.

 

Por que trazer essa exposição aqui para o ambiente universitário?

Acho que primeiramente por ter sido um tema cotado antes, mas nunca escolhido. E por estarmos na FAV, estarmos num ambiente onde fazemos cursos que nos fazem respirar cultura 24h por dia, e trazer temas como a arte drag para cá é muito importante, principalmente por esse momento atual de reestabelecer o contato com a cultura no nosso país. Vivemos aí anos desgastantes para quem trabalha com a cultura, para quem trabalha com arte, então trazer um tema como esse agora em 2023, onde as coisas estão tentando se reestabelecer, acho que é importante para nós enquanto alunos enxergarmos novas possibilidades quando nos formarmos, e para quem tá entrando agora no curso.

 

Vocês têm planos de levar a exposição para locais além da universidade?

Nós temos sim, almejamos isso. Não sabemos se será possível por questões de acervo, financeiras também, enfim, mas nós recebemos um convite do coletivo para participarmos de um evento nacional de arte drag que vai acontecer aqui em Belém esse ano, e fomos convidados para levar a exposição para o evento. Queremos muito fazer isso, não sabemos se vamos conseguir levar toda a nossa expografia, mas queremos muito levar, nem que seja pelo menos alguns artefatos que temos expostos aqui.

 

O que tem de tão especial nas Themônias?

Eu tive muito contato com o coletivo, participei de muitos eventos com eles quando começamos a trabalhar juntos e eu acho que uma coisa que me pegou muito foi a sensação de estar inserida em algo. Eu sou uma mulher lésbica, mas as vezes não me vejo muito inserida na comunidade LGBTQIAP+, e eu acho que as Themônias trazem muito essa questão da pessoa que não se encaixa, e elas te abraçam nesse sentido. Há duas semanas teve o ballroom da Haus of Carão no Samaúma, e eu estava lá com alguns amigos, e teve uma performance da Skyssime que me emocionou muito só de estar vendo aquela mensagem, porque eu percebi que era um ambiente que eu poderia me sentir incluída enquanto mulher lésbica, mesmo não fazendo parte efetivamente sabe?

 

Vocês escolheram os itens de forma específica, ou planejaram todos os que estão disponíveis na expositório? E a ordem da disposição dos itens tem um motivo para ela?

Acho que foi uma junção das duas coisas. Fizemos o projeto executivo com os itens que estão expostos, mas quando fizemos, não sabíamos mais ou menos qual seria o acervo disponível na questão da indumentária (roupas), e esse acervo foi colocado lá a partir do contato que tivemos com as Themônias e do que elas puderam nos disponibilizar. O percurso da exposição foi pensado para ser da forma que está, o visitante é livre para escolher seu próprio percurso, mas quando tem a mediação, nós sugerimos começar pela esquerda, pois começando por ela tem a contextualização da arte drag, de onde começou até chegar em Belém e até passar pelas Themônias. Nós temos também um documentário dividido em duas partes, onde ele traz as pessoas do coletivo falando da sua arte, e isso é muito importante. Nós não queremos dar voz para essas pessoas, nem palco, pois elas já são suas próprias vozes e palcos, queremos apenas divulgar, espalhar por aqui isso. Apesar da arte themônia ser uma arte de vanguarda aqui no Brasil, como diz o Alecson que performa a Shayra Botero, ela não é muito conhecida na cena artística aqui de Belém por quem não é do meio drag, então tem muita gente que chega aqui na exposição e tem um contato pela primeira vez, e esse era um dos nossos objetivos e está sendo alcançado.

 

A exposição ficará em exibição até o final do mês de junho. Vale a visita para conhecer mais!

 

O Portal Jambu é um espaço de jornalismo experimental com matérias produzidas por estudantes de graduação da Faculdade de Comunicação da UFPA sob a coordenação da Profa. Dra. Regina Lima e do jornalista Marcos Melo.

*Com supervisão de Giullia Moreira.

Foto de Capa: Rafael Arcanjo

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