
Por Regina Lima/ Imagem : Dalton Valério
“Somos mesmo uma humanidade?” A pergunta lançada por Ailton Krenak atravessa o espetáculo Ideias para adiar o fim do mundo, que será apresentado nos dias 17, 18, 20 e 21 de junho na CAIXA Cultural Belém. Inspirada no livro homônimo do escritor e líder indígena, a montagem aborda temas como a formação do Brasil, os impactos da colonização e os desafios enfrentados pelos povos indígenas, propondo diferentes formas de compreender a relação entre humanidade e natureza. A venda de ingressos começa dia 6 de junho, online.
Idealizado pelo diretor e dramaturgo João Bernardo Caldeira, o espetáculo nasceu do desejo de transformar em linguagem cênica algumas das reflexões propostas por Krenak. A pesquisa ganhou forma a partir do encontro com o ator indígena Yumo Apurinã, que passou a integrar também a construção dramatúrgica da montagem.
O espetáculo estreou com temporadas de ingressos esgotados no Rio de Janeiro e integrou festivais como o Interculturalidades, em Niterói, e o Festival Amir Haddad. Atualmente, a montagem realiza circulação nacional pelas unidades da CAIXA Cultural em São Paulo, Curitiba, Belém e Brasília. Em 2025, a convite das organizações La Clima e FILE Foundation, participou da programação do Dia da Justiça Climática durante a COP 30, em Belém.
Para João Bernardo Caldeira, a nova temporada na capital paraense amplia o diálogo proposto pela obra de Krenak.
“Trazer o espetáculo para a Amazônia tem um significado especial porque muitas das questões presentes na obra de Krenak atravessam diretamente este território. Ao colocar diferentes cosmologias em diálogo, a peça convida o público a reflorestar os imaginários com que pensamos o Brasil, abrindo espaço para outras narrativas sobre a nossa história e outras possibilidades de futuro.”
Em cena, Yumo interpreta a si mesmo: um homem do povo Apurinã que, evangelizado na infância, tenta reconstruir sua relação com a ancestralidade. Nascido em Rondônia e morador da região Sudeste, o ator leva ao palco experiências marcadas pelos deslocamentos entre diferentes mundos e pelos estereótipos que ainda recaem sobre os povos indígenas no Brasil contemporâneo.
“Sou constantemente colocado à prova. Meu corpo não corresponde ao ‘índio’ do imaginário da cidade, mas também não caibo em outras classificações. Ainda assim, sei quem sou: um Pupỹkary Apurinã. O pertencimento é o que me orienta. Sei de onde vim, onde estou e penso meu futuro a partir disso”, afirma Yumo.
Muitos mundos silenciados
A peça conduz o público por uma reflexão sobre os processos históricos que moldaram a formação do Brasil e determinaram quais vidas, saberes e modos de existir seriam reconhecidos como parte daquilo que aprendemos a chamar de humanidade.
“A peça sugere que talvez seja impossível imaginar futuros diferentes sem antes reelaborar as histórias que contamos sobre nós mesmos. Ao colocar em diálogo perspectivas historicamente marginalizadas pela colonização, ela amplia os imaginários a partir dos quais compreendemos o Brasil”, afirma João Bernardo Caldeira.
A montagem recupera episódios da história brasileira e dialoga com processos que ainda produzem efeitos no presente. Até a Constituição de 1988, por exemplo, os povos indígenas eram tutelados pelo Estado e considerados relativamente incapazes perante a legislação brasileira.
“Muitos mundos precisaram ser silenciados para que uma única narrativa sobre o Brasil se tornasse dominante. A peça procura aproximar o público de experiências, memórias e saberes que ajudam a compreender a complexidade da nossa formação histórica”, diz o diretor.
A reflexão também atravessa a relação entre conhecimento, território e imaginação.
“A crise ambiental também é uma crise de imaginação. Reflorestar os imaginários é abrir caminho para outras narrativas sobre quem somos e sobre os futuros que podemos construir.”
Histórias para adiar o fim
A temporada contará ainda com a atividade gratuita Histórias para adiar o fim, encontro entre Yumo Apurinã e a escritora, poeta, geógrafa e ativista indígena Márcia Kambeba, no dia 20 de junho, às 16h.
Nascida no Amazonas e radicada no Pará, Márcia é uma das principais vozes indígenas da literatura contemporânea brasileira. Sua produção aborda temas como território, ancestralidade, memória e identidade indígena.
O encontro propõe uma conversa sobre arte, literatura, produção de conhecimento e os caminhos abertos pelos povos indígenas para pensar o presente e o futuro do país.
Serviço
Ideias para adiar o fim do mundo
Apresentações nos dias 17, 18, 20 e 21 de junho
Horários
Quarta, quinta, sábado e domingo, às 19h
Domingo, sessão extra às 16h
Ingressos
R$ 30 (inteira)
R$ 15 (meia)
CAIXA Cultural Belém
Avenida Marechal Hermes, s/n, Armazém 6A, Reduto (Porto Futuro II), Belém
Horários de funcionamento
Terça a domingo, das 10h às 21h
Acesso para pessoas com deficiência
Informações
www.caixacultural.gov.br
@caixaculturalbelem
@adiarofim
Obs.: Não haverá sessão no dia 19 de junho em razão do jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.
Programação paralela
Histórias para adiar o fim
Encontro entre Yumo Apurinã e Márcia Kambeba
Data: 20 de junho
Horário: 16h
Entrada gratuita
