
Por Regina Lima/ Imagem: Divulgação
Radicado em Belém do Pará há quatro anos, o autor de O Último Ancestral, A Malta Indomável e Rastros de Resistência tem se consolidado como uma das vozes brasileiras que discutem a relação entre tecnologia, cultura, território e imaginação de futuro. Para Ale Santos, a Amazônia continua sendo tratada como consumidora de soluções concebidas em outros contextos, sem participação efetiva na definição dos problemas que essas tecnologias deveriam resolver.
“O futuro definido pelas empresas de tecnologia dos EUA desumanizam as populações amazônicas, a gente recebe verticalmente a proposta deles, antenas de wifi do Elon Musk para que ele colete dados sobre as populações ribeirinhas e transforme em produto, mas o que deveríamos fazer é orientar a tecnologia para nascer de dentro da realidade amazônica, para construir conforto climático ou mobilidade urbana (que aqui considera o transporte pelo rio) e uso de energias renováveis para baratear o custo de vida da população.”
Reconhecido internacionalmente por sua contribuição ao afrofuturismo brasileiro, Ale Santos defende que a Amazônia precisa deixar de apenas consumir tecnologias importadas e participar da construção dos futuros que irão moldar a região nas próximas décadas. Enquanto a inteligência artificial e as grandes plataformas digitais prometem revolucionar o mundo, o escritor Ale Santos acredita que uma questão central continua sendo ignorada: para quem essas tecnologias estão sendo construídas?
A crítica de Ale Santos não é dirigida à tecnologia em si, mas à forma como ela é concebida. Segundo o autor, toda inovação nasce de uma visão de mundo e carrega consigo valores, prioridades e interesses. “A IA não nasceu no código. Nasceu na imaginação”, ressalta.
Para Ale Santos, a discussão sobre inteligência artificial precisa ultrapassar os debates sobre eficiência, produtividade e automação para incluir uma reflexão mais ampla sobre cultura, poder e desenvolvimento: “O problema não está na máquina em si, mas em qual história nós contamos sobre ela”.
Ale Santos foi apontado pela Science Fiction Research Association (SFRA), uma das principais instituições dedicadas aos estudos de ficção científica no mundo, como o afrofuturista mais popular de sua geração no Brasil. Sua obra também já foi tema de reportagens internacionais, incluindo uma entrevista para a BBC, e ajudou a consolidar uma nova geração de autores brasileiros de ficção especulativa.
Contudo, a reflexão desenvolvida por Ale Santos ultrapassa os limites da literatura. Para o autor, não existe uma visão universal de futuro. Diferentes povos imaginam o amanhã a partir de suas experiências, culturas, memórias e desafios concretos: “Não existe um futuro universal. As pessoas imaginam o amanhã a partir do lugar onde vivem, dos problemas que enfrentam e das culturas que constroem”.
Foi essa percepção que ganhou novas camadas após sua mudança para Belém. Vivendo na Amazônia, Ale Santos passou a observar experiências locais frequentemente ignoradas pelas narrativas tradicionais sobre inovação e desenvolvimento tecnológico: “O Pará é potência tecnológica quando olhamos para a distribuição musical, quando vim morar aqui encontrei todo um ecossistema criativo que envolve dos DJ de aparelhagem, à moda, ritmos como o tecnobrega, rock doido, design e dinâmicas de distribuição que torna esse sistema autossuficiente e independente do Sudeste”.
Para o autor, esses sistemas demonstram que tecnologia não se resume a plataformas digitais ou inteligência artificial. Ela também está presente nas formas como comunidades criam soluções, distribuem cultura, organizam redes econômicas e desenvolvem autonomia. “Nada disso precisa do sudeste pra existir, é uma potência própria e isso também é domínio da tecnologia e é a base do pensamento futurista”.
Em um momento em que a Amazônia ocupa espaço crescente no debate internacional, Ale Santos defende que a região não seja visa apenas como reserva ambiental ou fornecedora de recursos naturais, mas como produtora de conhecimento, cultura e imaginação: “A Amazônia é também um patrimônio simbólico, um portal para futuros imaginados a partir do Sul Global”.
Para o autor, a disputa pelo futuro passa necessariamente pela disputa dos imaginários que orientam o desenvolvimento tecnológico e social: “Nosso futuro, assim como nosso passado, tem cor, tem som, tem cheiro, tem território”.
Sobre Ale Santos
Ale Santos é escritor e uma das principais vozes do afrofuturismo na nova geração brasileira, citado pela Science Fiction Research Association. Autor de O Último Ancestral (HarperCollins), A Malta Indomável e roteirista de La Bestia, HQ oficial da série Assassin’s Creed: Visionaries, desenvolve o conceito de futurismo periférico para discutir como tecnologia, cultura e poder moldam quem participa das narrativas de futuro.
Duas vezes finalista do Jabuti, integra o Conselho Fundador da Verse Media, startup voltada à construção de infraestrutura cultural e tecnológica para histórias latino-americanas. Seu trabalho conecta afrofuturismo, cyberpunk, ancestralidade e crítica social para imaginar futuros a partir das margens.
