
Por Regina Lima/ Imagem: Divulgação
Nesta quarta-feira, dia 29 de abril, o documentário paraense “Xingu, Nosso Rio Sagrado” faz sua estreia oficial em festivais com uma exibição especial na 11ª edição do Festival Pan-Amazônico de Cinema – AMAZÔNIA FiDOC, em Belém. O filme concorre na Mostra Competitiva Amazônia Legal, na categoria longa-metragem, com outros cinco filmes produzidos na região.
Segundo Angela Gomes, diretora do filme, “é muito importante que o filme faça sua estreia neste festival, na Amazônia, pois traz tema, personagens e histórias de vida que estão aqui ao nosso lado e que muitas vezes são ou desconhecidas ou desconsideradas. Então o filme convida a olhar as questões urgentes que afetam a região desde aqui, com o olhar de quem vive aqui”.
O filme, que é o primeiro longa-metragem da cineasta, lança um olhar reflexivo sobre os impactos da hidrelétrica Belo Monte uma década após o barramento do rio Xingu, e chega às telas em um momento de alerta máximo: notícias recentes confirmam que a seca extrema no rio Xingu tem exposto os limites operacionais de Belo Monte e agravado a crise humanitária e ambiental que a região da Volta Grande vem vivendo desde que o rio foi desviado pela barragem.
De acordo com Josiel Juruna, liderança do povo Yudjá-Juruna da Volta Grande do Xingu, e um dos personagens do longa, “o filme consegue mostrar muito bem a realidade que chegou para nós. Ele funciona como uma denúncia do que está acontecendo na Volta Grande como, por exemplo, essa questão da morte das ovas e a interrupção da piracema, que vem se repetindo há vários anos. Para nós, a única solução realista seria rever essa vazão de água que passa pelo nosso território, e o documentário ajuda a levar esse alerta para o grande público”.
Resistência
Em um contexto de resistência dos povos tradicionais contra novos projetos com alto potencial de deixar rastros predatórios na região e nos rios amazônicos, como a mineração a céu aberto no rio Xingu pela Belo Sun, ou a construção da Ferrogrão na região do Tapajós, o filme posiciona o rio Xingu como um dos epicentros das discussões sobre grandes empreendimentos na Amazônia e as consequências para a vida dos rios e dos povos indígenas e tradicionais dos territórios afetados. Uma reflexão urgente sobre o presente e futuro da região e do planeta.
Josiel destaca que a resistência dos povos indígenas está cada vez mais organizada e ocupando espaços necessários. “Este ano, o Monitoramento Ambiental Territorial Independente (MATI-VGX) deu um passo histórico ao se transformar oficialmente em um Instituto, e as mulheres indígenas também formalizaram seu Conselho, unindo mulheres Juruna e Arara. Cada região tem sua forma de luta, mas estamos nos fortalecendo para que os povos indígenas sejam realmente vistos no Brasil”, reafirmou.
Guardiãs
Sob a narração e o ponto de vista da cacica Kokongri Kayapó, o documentário é uma jornada que revela como o desvio do curso do rio e o controle da vazão alteraram um dos locais mais biodiversos da Amazônia. O filme registra a drástica mudança de comunidades que, sem água e sem piracema, viram seus modos de vida serem profundamente alterados, incluindo a chegada da prática de cultivar peixe em cativeiro.
É nesse cenário que o filme destaca o protagonismo das mulheres na proteção do território e na denúncia dos impactos. A narrativa acompanha as trajetórias de lideranças como Bel Juruna e a ribeirinha Maria Francineide, cujas vivências na proteção contra a “morte” do rio sagrado e diante da crise climática são o fio condutor das estratégias de resistência apresentadas na obra.
Produção de Impacto
O filme é uma produção totalmente paraense, realizado pela produtora Visionária Filmes e dirigido pela cineasta Angela Gomes, e filmado na região de Altamira e Volta Grande do Xingu e em São Félix do Xingu, na Terra Indigena Kayapó. Contou com a colaboração dos cineastas Kayapó do sul do Pará, integrantes do Coletivo Beture Mebêngôkre-Kayapó, que participaram da equipe técnica, assim como jovens indígenas Juruna e Assurini que trabalham com audiovisual, tornando este o primeiro longa profissional do estado a incluir cineastas indígenas em funções técnicas em todas as etapas de produção. O projeto foi desenvolvido com aporte da Ancine/FSA/BRDE na fase de pesquisa e roteiro, e financiado pela Lei Paulo Gustavo via Secult Pará e Ministério da Cultura.
“O projeto foi pensado e desenhado desde o início com o propósito de diálogo e contribuição com as comunidades locais por onde a produção passou, e incluir as pessoas das comunidades na equipe fez parte disso, assim como a contratação dos serviços necessários. Utilizar mão-de-obra e serviços locais é uma forma de contribuição da produção com os lugares e pessoas que vamos envolvendo ao longo da realização, e isso nunca deveria ser perdido de vista em qualquer projeto”.
Em tempos de mudanças e emergências climáticas o filme é um convite à reflexão sobre o custo ambiental, social e cultural de um mega projeto na Amazônia, mostrando que o futuro da região e do planeta depende da força e sabedoria dos povos locais, que tratam rios e territórios como extensões de seus próprios corpos.
SERVIÇO
Exibição de “Xingu, Nosso Rio Sagrado” no AMAZÔNIA FiDOC
Data: 29 de abril de 2026
Local: SESC VER-O-PESO – Boulevard Castilho França, 522/523, bairro Campina
Horário: 18:30
Entrada: gratuita- retirada de ingressos no local
FICHA TÉCNICA RESUMIDA:
Direção e Roteiro: Angela Gomes
Produção: Cezar Moraes / Angela Gomes
Fotografia: Cezar Moraes e Simone Giovine
Direção de Produção: Railídia Carvalho
Duração: 77 min.
Realização: Visionária Filmes
