
Por Regina Lima/Imagem: Divulgação
Nascido de um projeto de formação voltado ao empreendedorismo e à gastronomia, o coletivo Cozinha da Vila será responsável pelo jantar em celebração ao Dia da Suíça, apresentando sabores amazônicos a mais de 400 convidados.
Nesta quinta-feira (9), a culinária da Vila da Barca, comunidade de palafitas localizada em Belém (PA), ganha projeção internacional. O coletivo Cozinha da Vila, formado por mulheres da comunidade, será responsável pelo jantar oficial promovido pela Embaixada da Suíça, em Brasília, em comemoração ao Dia da Suíça.
O cardápio reúne ingredientes e técnicas tradicionais da Amazônia, levando aos mais de 400 convidados uma experiência que combina gastronomia, cultura, sustentabilidade e valorização dos pequenos produtores da região.
“Peixe, camarão, caranguejo, chicória, alfavaca, cupuaçu, farinha e açaí são alguns dos principais produtos da nossa região. Eles não vêm da indústria, vêm da floresta, dos rios e das mãos de pequenos produtores”, destaca a cientista política e ativista social Suane Barreirinhas, uma das coordenadoras do projeto Roteiro Cozinha Periférica.
Gastronomia como ferramenta de transformação social
O coletivo nasceu a partir do Roteiro Cozinha Periférica, iniciativa desenvolvida ao longo de 2025 para fortalecer o empreendedorismo feminino na Vila da Barca. O projeto ofereceu formação em gastronomia, comunicação digital e gestão de pequenos negócios para mulheres que já atuavam na produção e comercialização de alimentos.
Segundo a pedagoga Inêz Medeiros, coordenadora da iniciativa, o objetivo foi potencializar conhecimentos que já existiam dentro da comunidade.
“Grande parte das mulheres da Vila da Barca são mães solo e chefes de família. Muitas já trabalhavam com a venda de comidas, lanches e cafés. O projeto fortaleceu esse empreendedorismo, ampliando conhecimentos técnicos e valorizando ingredientes que elas já utilizavam no cotidiano.”
A iniciativa recebeu apoio da Embaixada da Suíça no Brasil por meio do Edital de Apoio a Projetos da Sociedade Civil.
Da formação ao mercado
Após concluir a formação de uma turma com 24 mulheres, entre março e setembro de 2025, o grupo começou a receber convites para fornecer cafés, almoços e eventos institucionais. O sucesso das primeiras experiências levou à criação do coletivo Cozinha da Vila, que passou a gerar renda para suas integrantes.
Entre elas está Iranilda Pantoja, responsável pelo pré-preparo dos alimentos.
“Faço toda a higienização das verduras, preparo os cortes, tempero as carnes e também participo da montagem das mesas. Meu carro-chefe é o ceviche de manga.”
Segundo a cozinheira, a renda obtida com os serviços já está sendo utilizada para melhorar a qualidade de vida da família.
“Com esse dinheiro consigo comprar as minhas coisas, ajudar em casa e estou juntando recursos para reformar minha nova residência.”
Sabores amazônicos no jantar oficial
Cinco mulheres viajaram a Brasília para representar o coletivo no jantar da Embaixada da Suíça.
Entre elas está a chef Iza Freitas, responsável pela casquinha de caranguejo, um dos destaques do cardápio.
“É uma carne muito sensível e exige cuidado em todas as etapas, desde o descongelamento até o preparo final. Viemos mostrar nosso trabalho e queremos que tudo saia perfeito.”
Na apresentação realizada para jornalistas na quarta-feira (8), as cozinheiras serviram caldo de camarão, cuscuz de farinha de Bragança, redução de tucupi, peixe grelhado e torta Maria Izabel de bacuri.
Durante o jantar oficial, o menu amazônico será harmonizado com pratos tradicionais suíços, como a raclette, preparada com queijo derretido servido sobre batatas e embutidos.
Muito além da gastronomia
O Cozinha da Vila faz parte de um conjunto de iniciativas voltadas ao fortalecimento da identidade da Vila da Barca.
Desde 2019, moradores desenvolvem projetos para valorizar a memória, a cultura e as potencialidades da comunidade. Entre eles estão a Barca Literária, a revista Vozes da Vila e o projeto Memória e Cultura Periférica, que resultou na criação do Museu Memorial Vila da Barca.
O historiador e jornalista Kelvyn Gomes explica que o objetivo sempre foi combater os estigmas associados às periferias.
“A imagem construída sobre comunidades periféricas costuma ser pejorativa. Queríamos mostrar outra narrativa, valorizando nossa cultura, nossa gastronomia, nossa música e as pessoas que fizeram e fazem a história da Vila da Barca.”
Criado em 2020, o projeto Memória e Cultura Periférica já reuniu mais de 500 documentos históricos doados pelos moradores e, em 2024, lançou a revista Vozes da Vila, produzida por adolescentes da comunidade. Foi justamente o mapeamento dos tradicionais pontos de venda de alimentos realizado pela publicação que inspirou a criação do Roteiro Cozinha Periférica.
Hoje, a iniciativa representa um exemplo de como cultura, memória e gastronomia podem caminhar juntas para promover inclusão social, geração de renda e valorização dos saberes amazônicos.
Serviço
Jantar do Dia da Suíça
Data: 9 de julho de 2026
Local: Embaixada da Suíça, Brasília (DF)
Público previsto: mais de 400 convidados
Cardápio amazônico: casquinha de caranguejo, ceviche de manga e torta Maria Izabel de bacuri, além de pratos tradicionais suíços como a raclette.
Realização: Coletivo Cozinha da Vila, formado por mulheres da Vila da Barca e originado do projeto Roteiro Cozinha Periférica, iniciativa apoiada pela Embaixada da Suíça no Brasil.
