
Por Regina Lima/Imagem:Lirio Moraes
Projeto Marajó Resiliente já beneficiou mais de 13 mil pessoas e mostra como a união entre conhecimentos ancestrais, agroecologia e articulação comunitária pode enfrentar os impactos das mudanças climáticas no arquipélago paraense.
As mudanças climáticas já fazem parte da rotina das comunidades do arquipélago do Marajó. Em vez de esperar por soluções externas, agricultoras, agricultores familiares e comunidades quilombolas dos municípios de Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arari têm construído respostas a partir do próprio território, combinando conhecimentos tradicionais, sistemas agroflorestais e organização comunitária.
Essa é a proposta do Projeto Marajó Resiliente, iniciativa que promove a adaptação climática liderada localmente e que, até o momento, já apoiou diretamente 1.896 pessoas, beneficiou 11.649 de forma indireta e implantou 436,3 hectares de Sistemas Agroflorestais (SAFs) nos três municípios marajoaras.
Realizado pela Fundación Avina e financiado pelo Fundo Verde do Clima (Green Climate Fund – GCF) e pela Climate and Land Use Alliance (CLUA), o projeto reúne instituições como Instituto Belterra, Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), CONEXSUS, além de organizações territoriais, cooperativas e associações locais, fortalecendo estratégias de adaptação climática diante do aumento das secas, enchentes e outros eventos extremos que afetam a região.
Agroflorestas como estratégia para enfrentar a crise climática
Os Sistemas Agroflorestais são uma das principais ferramentas adotadas pelo projeto. Em vez da monocultura, as áreas cultivadas reúnem espécies como açaí, cupuaçu, manga, hortaliças e outras culturas, permitindo produção ao longo de todo o ano, maior diversidade de renda e redução da vulnerabilidade provocada pelas mudanças do clima.
Além da segurança alimentar, os SAFs contribuem para conservar o solo, melhorar a infiltração da água, preservar o microclima e aumentar a resistência das propriedades rurais aos períodos de estiagem e excesso de chuvas.
Durante a janela de plantio 2025/2026, foram implantados 436,3 hectares de agroflorestas, envolvendo 401 famílias, sendo 211 sistemas liderados por mulheres e 188 por homens. Do total de beneficiários, 179 são agricultores quilombolas. A distribuição contempla 292 famílias em Salvaterra, 91 em Cachoeira do Arari e 18 em Soure.
Mutirões resgatam tradição comunitária
Mais do que incentivar novas formas de produção, o projeto também recupera práticas tradicionais que marcaram a história das comunidades marajoaras.
Os antigos mutirões de plantio, baseados na ajuda mútua entre vizinhos, voltaram a fazer parte da rotina de diversas localidades.
“Antigamente, quando meus avós plantavam, trabalhavam através de mutirão. Um vizinho ajudava o outro a plantar, a cercar. Isso tinha acabado há um tempo. E quando veio o Projeto Marajó Resiliente, lembrei muito do passado, porque essa forma de trabalhar voltou”, relata a agricultora Maria Regina, da Vila Bacuri, em Cachoeira do Arari.
Segundo o projeto, esses encontros fortalecem os vínculos comunitários e ampliam a troca de conhecimentos entre as famílias participantes.
Alimentação mais saudável e produção diversificada
Os impactos também chegam à mesa das famílias.
Na comunidade de Maruacá, em Salvaterra, a agricultora familiar Samara Patrícia afirma que a produção diversificada modificou os hábitos alimentares da comunidade.
“Antes a gente se alimentava de comidas industrializadas e vejo que hoje conseguimos comer muitas coisas naturais, que vêm do nosso próprio quintal. Melhora a nossa saúde e a nossa forma de se alimentar”, conta.
Adaptação climática envolve toda a sociedade
Além do trabalho junto às comunidades rurais, o Projeto Marajó Resiliente busca fortalecer a governança climática nos municípios participantes.
Uma das ações é a campanha “Marajó Unido Pelo Clima”, que apoia as prefeituras na criação de comitês municipais de ação climática e na elaboração dos Planos Municipais de Adaptação às Mudanças Climáticas.
Pelo menos 50 gestores públicos participaram de diálogos para construção dos chamados Planos de 100 Dias, voltados à implementação de políticas públicas capazes de reduzir os impactos de eventos extremos sobre a população.
O projeto também articula agricultores, organizações da sociedade civil, secretarias municipais e agentes de crédito rural, entendendo que a adaptação climática depende da atuação conjunta de diferentes setores.
Crédito rural amplia oportunidades
Outro resultado considerado histórico ocorreu em novembro de 2025, quando foi firmado o primeiro contrato do Pronaf B no território em nome de uma mulher.
O fortalecimento do acesso ao crédito também ganhou impulso com a realização do Fórum AtivaCred, que reuniu mais de 400 participantes e 40 organizações para discutir mecanismos de financiamento destinados à agricultura familiar no arquipélago.
Construindo um futuro mais resiliente
Com execução prevista para cinco anos, o Projeto Marajó Resiliente aposta que enfrentar as mudanças climáticas passa necessariamente pelo fortalecimento das comunidades locais.
Ao unir assistência técnica, agroecologia, acesso ao crédito, valorização dos saberes tradicionais e participação do poder público, a iniciativa demonstra que a adaptação climática pode ser construída a partir do território, fortalecendo a produção de alimentos, a organização comunitária e a capacidade de resposta das populações amazônicas diante dos desafios impostos pelo clima.
Saiba mais em:
marajoresiliente.org
@marajoresiliente
Youtube: MARAJÓ RESILIENTE – Adaptação climática liderada localmente MARAJÓ RESILIENTE – Implementação de Sistemas Agroflorestais
