
Por Rafael da Luz/Imagem: Rafael da Luz
Na última semana, nas redes sociais na cidade de Belém, um acontecimento chamou a atenção para uma questão fundamental: o que é a arte? Muitas pessoas nas redes sociais levantaram diversas opiniões sobre o mesmo acontecimento: a inscrição de três tags de três grafiteiros no monumento recém-inaugurado na Feira do Açaí e colagem de bombs nas esquadrias dos casarões durante roda de samba na noite de sexta-feira (04/07/25). Entre muitas opiniões manifestadas por vídeos ou mensagens e diversas postagens como no perfil do atual prefeito de Belém, gostaria de refletir não se foi crime ou não, mas sobre os discursos de ódio e casos de racismo que aconteceram com os envolvidos da intervenção.
Massivamente, pessoas comentaram nas postagens de políticos e outras pessoas com um número alto de seguidores sobre o ocorrido na Feira do Açaí, rua da Ladeira, por meio das redes sociais e, ao analisar o teor das postagens, foi perceptível que os rumos das discussões tomaram outros caminhos, como: o discurso de ódio contra moradores das periferias de Belém, generalizações discriminatórias contra quem faz graffiti e outras expressões artísticas na cidade, além de ataques racistas no perfil do Instagram de um dos envolvidos na intervenção do monumento. Vale ressaltar que vivemos em uma sociedade das contradições, onde uma situação que foi caracterizada como crime contra o patrimônio público foi dimensionada a nível midiático do que os casos de racismo e discriminação que os envolvidos sofreram, pois o discurso de ódio ganhou corpo e voz nas redes sociais. Isso escancara as dimensões das opressões e violências que a periferia e sujeitos periféricos enfrentam no dia-a-dia.
No livro “Discursos de ódio contra negros nas redes sociais” da jornalista Luciana Barreto (2023), o tema do discurso de ódio é discutido como uma “prática social” que se manifesta por ataques ou incitação ao ódio contra determinados grupos sociais com base em raça, etnia, condição social, gênero, entre outros, e tendo em vista que o ódio apresentado em vários comentários está associado ao sentimento provocado pelo racismo. Entre haters e trolls que comentaram nas postagens incitando a violência, morte dos grafiteiros envolvidos no caso, muitos aproveitaram a ocasião para reforçar estereótipos negativos contra o que é produzido enquanto cultura, arte e educação nos territórios periféricos da cidade.
Daí partem os questionamentos: arte para quê? O artista visual e pichador paulista Negro M.I.A (João França) viveu um dos casos mais reflexivos da última década no que envolve arte e pixo, discriminação racial e apropriação intelectual. Em 2018, Negro M.I.A pichou a frase “Olhai por nóis” na fachada do Pateo do Collegio (lugar onde foi levantada a primeira construção da cidade de São Paulo, fundada em 1554) como forma de denunciar as violências e desprezo que as pessoas em situação de rua no centro de São Paulo enfrentam. Ele conta que neste dia havia mais de 100 pessoas dormindo na calçada, e intervir na parede da Igreja foi uma forma de chamar a atenção da sociedade sobre seres humanos que tiveram seus direitos retirados e são invisíveis numa grande metrópole.
Na época, M.I.A. foi preso, multado, respondeu a processo e teve sua imagem associada a um criminoso perigoso, e sua vida foi resumida à marginalidade por muitos veículos de comunicação. Seis meses depois, para surpresa do artista, um fotógrafo submeteu pela Faculdade de Belas Artes a foto da intervenção no Pateo do Collegio na 15ª edição da SP-Arte. M.I.A, respondeu à altura com uma outra intervenção artística inteligente e engajada: foi na abertura da SP-Arte, pichou a palavra negro em cima do vidro da foto (vendida a mais de dois mil reais) e espalhou notas de cem e cinquenta reais com a inscrição (art sem valor). Depois do ocorrido, Mia desabafa um caso de racismo institucional: “Negro pela exploração do povo e do trabalho do negro. Eu sou de periferia, jamais teria uma obra exposta na SP-Arte. Quem expôs foi um fotógrafo estudante da Escola Belas Artes, branco, não o autor da intervenção, um homem negro”. Com intervenções em espaços públicos, o artista Negro M.I.A demonstra a necessidade de decolonizar a arte no Brasil. Arte pra quem?

Neste sentido, a atenção está voltada para o quanto as pessoas são afetadas pela questão racial e o quanto isso explica muita coisa. Infelizmente, o racismo não permite que a sociedade seja letrada racialmente e que a raça também atravessa o campo das artes visuais. A intervenção foi feita num banco de plástico e foi usada como narrativa de promoção por muitos usuários, que aproveitaram o ocorrido para culpabilizar até quem não está envolvido, como é o caso das rodas de carimbo resistência que acontecem nos finais de tarde aos domingos e roda de samba. Um povo adoecido, entristecido, não consegue resistir, não consegue se manifestar, e o que os grupos de carimbó e samba realizam na feita é um autêntico processo de resistência artístico-social e preservação da cultura e tradição ancestral viva. Duas coisas muito perigosas aconteceram nas opiniões sobre o assunto nas redes sociais: ataques de ódio contra a periferia e casos de racismo. Um dos envolvidos, o grafiteiro PTCK denunciou por meio de suas redes sociais que sofreu diversos ataques racistas via direct no Instagram. Os criminosos se utilizaram de perfis fake para tecer comentários racistas e discriminatórios com base por ser morador da periferia, favela, condição socioeconômica. Por que a arte é uma das agendas urgentes na periferia?
Um dos grandes exemplos do graffiti como arte engajada e social é a realização do mutirão de graffiti promovido pelo Sarau em Movimento, Estorvo Lab, Hip-Hop Pai-d’egua na Ocupação Liberdade na Terra Firme. Quando pesquisamos na internet sobre a Ocupação Liberdade, o algoritmo de pesquisa associa imediatamente o local a criminalidade como por exemplo “operação policial no local para prevenir e reprimir ações criminosas”. A ocupação não se resume a este tipo de conteúdo ou informação, mas o algoritmo busca informações mais relevantes na web e percebemos que a mídia resume o lugar e as pessoas que lutam pelo direito à moradia a espaço perigoso e de criminalidade. Mas a Ocupação Liberdade é muito mais, existe e insiste em resistir, sendo a arte urbana e periférica um caminho eficiente e democrático para se manifestar e exigir melhores condições de vida e políticas públicas voltadas para moradia, para o acesso à direitos básicos. No mutirão, realizado no primeiro semestre, a comunidade da ocupação junto com movimentos artísticos e sociais mobilizaram artistas do graffiti, rap, cênicas, poesia, para chamar atenção para as condições de vida que as pessoas foram submetidas. A arte é um movimento de mobilização e engajamento social.

Assim como a capoeira, o samba, a arte afro-brasileira são perseguidas com base na raça, muitos dos artistas que vivem e fazem arte com/na periferia lutam contra padrões hegemônicos estabelecidos historicamente nos circuitos das artes que tratou o negro como tema, objeto e não como sujeito, autor, artista. O campo político é indissociável da vida em comunidade e a arte é uma extensão da vida, dos processos de resistência e mobilização social que constituem cada realidade urbana. A periferia de Belém é o centro da produção artístico-cultural, e nomear a arte como arte civilizada e ordeira é criar estereótipos que também são pilares da diferença e do racismo, como dizer que falta de cultura na periferia ou que falta “refinamentos civilizados”. Esses padrões de civilidade foram demarcadores raciais no período da escravização no Brasil e de rebaixamento de humanidade. As palavras têm poder, e quando esse poder vem revestido de ódio e racismo, é preciso estar atento, porque nesses momentos as pessoas que sempre resistiram tendo a arte como elemento de luta e resistência vão se manifestar por meio dela na sociedade para denunciar e mudar relações de poder e violência. Finalizo com as palavras do poeta Quilombola, Zak Aruak: “Viver da arte ou viver pra arte. Sei que o reconhecimento vem com o tempo e isso faz parte. Mas, nós aqui do norte está fazendo hora extra”.

Texto muito lúcido. Parabéns!