
Por Regina Lima/Imagem:Divulgação
Programa da Mostra de Cinema da Amazônia reúne produções independentes em Turim, Milão e Sydney, com sessões e debates sobre música, cultura, direitos indígenas e preservação ambiental
O programa Amazonian Sessions, realizado pela produtora paraense Mekaron Filmes, amplia a circulação internacional do cinema amazônico com exibições na Itália e na Austrália. Entre 25 de outubro e 8 de novembro de 2026, a iniciativa integra a 13ª edição do Agenda Brasil, festival de cinema e cultura brasileira realizado em Turim e Milão, dedicado neste ano à Amazônia. Em 10 de novembro, o projeto chega a Sydney, em parceria com o Brazilian Film Festival Australia (BFFA).
A seleção italiana reúne os longas-metragens Amazônia Groove e Yanuni, além dos curtas paraenses Boiuna, Nação do Futebol e Matinta. Na Austrália, será exibido Mundurukuyu: A Floresta das Mulheres Peixe, dirigido por Aldira Akay, Beka Munduruku e Rilcélia Akay, com produção de Estevão Ciavatta. As obras aproximam o público internacional das expressões culturais, histórias e perspectivas dos povos da região.
Lançado em junho de 2026, durante a 11ª edição da Mostra de Cinema da Amazônia, realizada no Rio de Janeiro, Londres, Roma, Veneza e Lausanne, o Amazonian Sessions busca abrir novos espaços para o audiovisual independente amazônico. Para isso, estabelece parcerias com programas culturais, mostras e festivais.
A primeira parada oficial ocorreu em 7 de julho, na Università degli Studi del Molise, na Itália, com a exibição de Yanuni, documentário coproduzido por Leonardo DiCaprio e protagonizado por Juma Xipaia. Após a sessão, o cientista social Enzo Lauriola participou de um debate sobre povos originários.
Cinema e cultura amazônica na Itália
Nesta etapa, as atividades ocupam três espaços culturais italianos. Em Turim, o Cineteatro Baretti, sala de cinema de arte localizada no histórico espaço do bairro San Salvario, recebeu a abertura em 25 de outubro. Em Milão, as sessões acontecem no Anteo Palazzo del Cinema, situado na Piazza XXV Aprile, entre Brera e Porta Garibaldi, e no Parco Center, espaço polifuncional que acolhe diferentes manifestações artísticas.
Além dos filmes, o Agenda Brasil oferece música ao vivo, poesia, degustação de iguarias brasileiras e debates. Entre os convidados estão a DJ, radialista, tradutora e ex-dançarina brasileira Mônica Paes; o percussionista e compositor Gilson Silveira; e a produtora cultural Regina Marques, coordenadora-geral do festival.
Amazônia Groove, de Bruno Murtinho, abriu a programação em Turim, com apresentação de Gilson Silveira, e será exibido em Milão em 5 de novembro, com participação de Mônica Paes. O documentário percorre a diversidade musical do Pará, do carimbó e do boi-bumbá à música clássica e ao tecnobrega, reunindo artistas como Dona Onete, Mestre Laurentino, Manoel Cordeiro e Sebastião Tapajós.
No dia 8 de novembro, o Parco Center recebe a sessão “Cortometraggi Amazzonici”, com três curtas selecionados pela Mostra de Cinema da Amazônia. As produções abordam o imaginário regional, as relações familiares e as práticas culturais dos povos originários. Na mesma noite, Yanuni, de Richard Ladkani, encerra o festival.
Mulheres Munduruku em destaque na Austrália
Em Sydney, o encontro será realizado em 10 de novembro, às 17h30, no Centre for Criminology, Law and Justice (CCLJ) da University of New South Wales (UNSW). Promovida em parceria com o Brazilian Film Festival Australia, a atividade terá a exibição de Mundurukuyu: A Floresta das Mulheres Peixe, seguida de debate sobre direitos indígenas, resistência coletiva à colonização, justiça ambiental e narrativas.
Filmado às margens do rio Tapajós, no Pará, o documentário é o primeiro longa-metragem das mulheres do Coletivo Audiovisual Munduruku Daje Kapap Eypi. A obra apresenta a perspectiva das próprias realizadoras sobre o cotidiano e a cosmologia da aldeia Sawre Muybu, onde os espíritos ancestrais, a natureza e os laços de parentesco estão profundamente entrelaçados.
O filme também mostra como as mulheres Munduruku utilizam as câmeras para registrar histórias e memórias e defender a Amazônia do garimpo ilegal e das ameaças territoriais que cercam o rio, considerado sagrado pela comunidade.
A apresentação será conduzida pelo jornalista e organizador do BFFA Fernando Vives. Participarão do debate Alex Fleck Brandão, professor da School of Law, Society and Criminology, vinculada à Faculty of Law and Justice da UNSW Sydney, e Ingrid Matthews, bacharela em Economia e Direito, doutora e professora da mesma faculdade.
A coordenadora do BFFA, identificada no material de divulgação pelo sobrenome Guerra, relaciona a sessão ao contexto político e socioambiental brasileiro. Em sua avaliação, os anos de desmonte das proteções ambientais, de paralisação das demarcações de terras indígenas e de crescente vulnerabilidade das comunidades reforçam a necessidade de ampliar o debate internacional.
“Tivemos um ponto de virada com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, no fim de 2022, e agora com sua reeleição as políticas de proteção aos povos originários estão aos poucos voltando a se fortalecer, por isso é muito importante falar sobre o assunto para que o mundo conheça essa história. E essa parceria com a Mostra de Cinema da Amazônia através das Amazonian Sessions vem para fortalecer ainda mais essa luta”, afirma a coordenadora.
O programa busca ampliar o alcance das vozes amazônicas para além de seus territórios e sensibilizar o público para a preservação da floresta, de suas culturas e dos povos ancestrais que a habitam há milhares de anos.
Novas rotas para o audiovisual da região
Com passagens por capitais europeias como Paris, Londres, Roma, Lisboa e Berlim, a iniciativa expande seu circuito por Itália, Reino Unido, Portugal, Colômbia, Estados Unidos, França, Alemanha, Polônia e Austrália. Segundo a organização, já há convites confirmados para os próximos meses em Bogotá, Nova York, Paris, Coimbra, Berlim, Varsóvia, Sydney, Melbourne, Canberra e Adelaide.
A expansão reforça a atuação da Mostra de Cinema da Amazônia na circulação internacional de saberes, estéticas e narrativas da Pan-Amazônia. Para o coordenador do projeto e realizador audiovisual Eduardo Souza, as parcerias com o Agenda Brasil e o Brazilian Film Festival Australia aproximam iniciativas comprometidas com a difusão da cultura brasileira.
“Para nós é uma grande alegria realizar uma ação significativa como esta na Itália e na Austrália em parceria com iniciativas culturais que desenvolvem ações de grande impacto e relevância na difusão da cultura brasileira no mundo”, afirma.
Souza ressalta que a proposta é apresentar a pluralidade e a complexidade da Amazônia e fortalecer sua presença nos debates ambientais e climáticos. “Estamos falando de um dos maiores patrimônios de biodiversidade do planeta e a necessidade de preservá-lo, não dá pra ignorar, e o cinema cumpre muito bem esse papel”, completa.
Programação Amazonian Sessions: Itália e Austrália 2026
Turim | Cineteatro Baretti
Domingo, 25 de outubro, às 17h30
Filme: Amazônia Groove
Direção: Bruno Murtinho
Ficha técnica: documentário | 83 minutos | Rio de Janeiro | 2019
Apresentação: Gilson Silveira, percussionista e compositor.
Na abertura em Turim, o documentário propõe uma viagem musical pelo Pará, entre ritmos ancestrais e novas sonoridades. Do carimbó e do boi-bumbá à música clássica e ao tecnobrega, a obra reúne mestres como Dona Onete, Mestre Laurentino, Manoel Cordeiro e Sebastião Tapajós.
Milão | Anteo Palazzo del Cinema
Quinta-feira, 5 de novembro, às 19h15
Filme: Amazônia Groove
Direção: Bruno Murtinho
Ficha técnica: documentário | 83 minutos | Rio de Janeiro | 2019
Apresentação: Mônica Paes, DJ, radialista, tradutora e ex-dançarina.
O longa abre a programação em Milão com um percurso pela diversidade musical amazônica, aproximando tradições e expressões contemporâneas a partir das trajetórias de artistas paraenses.
Milão | Parco Center
Domingo, 8 de novembro, às 17h30
Sessão: “Cortometraggi Amazzonici”, com curtas selecionados pela Mostra de Cinema da Amazônia.
Boiuna
Direção: Adriana de Faria
Ficha técnica: ficção | 20 minutos | Pará | 2025.
Quando mãe e filha retornam a uma ilha no Pará, forças misteriosas passam a rondá-las. As duas precisarão da força de um gigante para seguir em frente.
Nação do Futebol
Direção: Eduardo Souza
Ficha técnica: documentário | 26 minutos | Pará | 2014.
O documentário investiga as origens do esporte mais popular do mundo nas aldeias indígenas amazônicas. A produção apresenta brincadeiras realizadas há mais de dois mil anos com bolas de látex, bexiga de anta e ouriços, relacionando-as a práticas pioneiras do futebol entre os povos originários da Amazônia brasileira. O filme foi exibido nas 12 cidades-sede da Copa do Mundo de 2014, no Brasil.
Matinta
Direção: Fernando Segtowick
Ficha técnica: ficção | 20 minutos | Pará | 2010.
Em uma vila de pescadores na Amazônia, uma moradora adoece sem motivo aparente, despertando suspeitas de feitiço ou assombração. Desesperado, o marido procura uma cura para salvar a mulher e encontrar paz. Durante a busca, faz descobertas que poderão assombrá-lo para sempre.
Domingo, 8 de novembro, às 19h30
Filme: Yanuni
Direção: Richard Ladkani
Ficha técnica: documentário | 112 minutos | Brasil, Áustria, Estados Unidos e Alemanha | 2025.
Coproduzido por Leonardo DiCaprio, o documentário acompanha Juma Xipaia, apresentada como uma das principais vozes na defesa dos territórios indígenas da Amazônia brasileira e primeira secretária de Direitos Indígenas. Enquanto enfrenta ameaças de morte e vivencia a maternidade, seu marido, Hugo Loss, agente das forças especiais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), participa de operações contra o garimpo ilegal e outros crimes ambientais. Vencedor do prêmio do público de melhor documentário internacional na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o longa encerra o Agenda Brasil.
Sydney | University of New South Wales (UNSW)
Terça-feira, 10 de novembro, às 17h30
Local: Centre for Criminology, Law and Justice (CCLJ)
Filme: Mundurukuyu: A Floresta das Mulheres Peixe
Direção: Aldira Akay, Beka Munduruku e Rilcélia Akay
Produção: Estevão Ciavatta
Ficha técnica: documentário | 72 minutos | Pará | 2024
Apresentação: Fernando Vives, jornalista e organizador do Brazilian Film Festival Australia
Debatedores: Alex Fleck Brandão e Ingrid Matthews, professores da UNSW Sydney.
Às margens do rio Tapajós, o filme apresenta a mitologia Munduruku, segundo a qual os humanos se transformaram em florestas, plantas e animais. Na aldeia Sawre Muybu, os espíritos da floresta são membros vivos da família. O documentário acompanha também o uso das câmeras pelas mulheres para preservar suas histórias e memórias e proteger a Amazônia do garimpo ilegal e das ameaças territoriais.
Após a exibição, haverá debate sobre direitos indígenas, resistência coletiva à colonização, justiça ambiental e narrativas.
Acompanhe o projeto: Instagram @mostramazonia.
Mais informações: Agenda Brasil 2026 e Brazilian Film Festival Australia.
