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Após o sucesso estrondoso de “Ainda Estou Aqui”, que contou com a participação especial da atriz Fernanda Montenegro, o cinema brasileiro recebeu mais um presente: “Vitória”, um filme do gênero de drama e policial que conta a história de uma senhora solitária que tenta registrar e denunciar a presença de traficantes em sua vizinhança.

Interpretando novamente uma figura real, Montenegro dá vida a Joana Zeferino da Paz, cuja história a obra busca ampliar e contar. Em 2004, Joana decidiu começar a gravar, de seu apartamento em Copacabana, a atuação de criminosos e policiais corruptos, na esperança de denunciar a violência ao seu redor.

Na trama, somos apresentados à protagonista Josefina, que apesar da aparente fragilidade física por conta da idade, possui uma personalidade forte e ativa.

De forma irônica, a idosa transita pelas ruas do Rio de Janeiro no início do filme, o que incita nos telespectadores uma sensação de empatia e cuidado para com a personagem, mas é dentro de casa que ela torna-se de fato um alvo e uma vítima da violência. De forma semelhante ao filme “Zona de Interesse”, de 2023, o uso de sons são utilizados como elementos para ressaltar o terror vivido dentro daquela comunidade. Na obra britânica, sentimos os perigos e horrores do holocausto apenas ao ouvir gritos e tiros, sem de fato contemplarmos as cenas de violência. Assim como no longa, “Vitória” utiliza da mixagem de som para ampliar o clima de medo e insegurança, mesmo que possamos acompanhar o que a personagem vê. Pessoas falando alto, músicas e festas, coisas que geralmente evocam alegria e animação, aqui dão indícios de que há um problema maior sendo escondido: o tráfico de drogas e a sua influência negativa dentro de um bairro.

Um trunfo do filme é de acrescentar outros dois personagens à história de Josefina: Bibiana (Linn da Quebrada) e Marcinho (Thawan Lucas). Apesar de não terem existido na história real de Joana, a presença dos dois vizinhos de Josefina possibilita um maior desenvolvimento acerca da ideia de invisibilização e exclusão social vivida por grupos minoritários. A identificação entre os três personagens não é por acaso: Josefina é uma senhora idosa, sozinha, vista como alguém frágil; Bibiana, por sua vez, carrega o peso de ser uma pessoa trans dentro de uma sociedade preconceituosa; e Marcinho, uma criança negra e que vive na periferia, tem que lidar em sua rotina com a falta de políticas públicas e a insegurança dentro de sua própria comunidade.

Nesse contexto, observamos a diferença entre o silêncio e a ação de uma sociedade completamente enviesada e intolerante. As denúncias de Josefina e Bibiana sobre a presença de traficantes não são ouvidas e consideradas, no entanto, quando Marcinho, um menor de idade, torna-se vítima do recrutamento de crianças para o tráfico, há um julgamento desproporcional em torno de seu comportamento.

Da mesma forma, Joana Zeferino da Paz, negra e idosa, teve de tomar medidas mais drásticas para se fazer percebida. E até mesmo após a compra de uma câmera e gravações em estilo diário, demorou um pouco até que sua voz fosse ouvida – e não por vários agentes de segurança, mas somente por um policial e um jornalista.

Mesmo que o roteiro de “Vitória” escorregue em alguns momentos, somado à atuação mediana e até caricata de alguns poucos atores coadjuvantes, o filme sucede em resgatar a memória de Joana da Paz: uma mulher que, apesar de vítima de uma sociedade doente, continuou resiliente na busca pelos seus ideais e por um direito básico: a própria segurança. Fernanda Montenegro, como sempre, brilha em seu papel adicionando profundidade e a devida importância à Joana. Infelizmente, Joana não pode ser reconhecida ainda em vida, tendo falecido em 2023. Depois da denúncia que fez, a idosa teve que entrar no Programa de Proteção à Testemunha e deixar seu lar. A partir de seus registros, a polícia tomou providências e mais de 30 pessoas foram presas. Contudo, o que mudou após isso? Em “Vitória”, a protagonista do filme passa semanas consertando uma bela xícara de porcelana, que foi estilhaçada no chão após um grande susto. Perto do final, a xícara é finalmente colada de volta, mas continua vazando seu conteúdo. Fica a reflexão: o que a luta de Joana significou para o Rio de Janeiro? Não há demérito algum em sua denúncia, a história de Joana deve ser celebrada e usada como referência, mas a violência no Brasil segue como um problema sem solução fácil, que continua deixando vazar dolorosas consequências para a sociedade. Joana nunca mais retornou ao seu lar. E enquanto o Brasil continuar a falhar com tantas outras ‘Joanas’, como uma xícara quebrada, a violência seguirá como uma ferida aberta.

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