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Inaugurado no dia 15 de fevereiro de 1878, o Teatro da Paz comemora, neste sábado, 15, 147 anos de história. Reflexo do crescimento e da euforia econômica pela qual Belém passava na segunda metade do século XIX, a primeira casa de espetáculos da Amazônia foi planejada para atender aos anseios de uma nascente e crescente elite econômica, os senhores da borracha, mas acabou recebendo um público “diferenciado”. O Portal Jambu rememora o passado de um dos teatros mais antigos do Brasil para entender um pouco sobre sua história e a de seus espectadores.

Por Kelvyn Gomes/Imagem: Fidanza, 1875

Um símbolo de modernidade e divisão social

O Teatro da Paz, um dos principais símbolos de Belém, foi marcado por distinções sociais, considera Rose Silveira, autora de “Histórias invisíveis Teatro da Paz”. No final do século XIX, enquanto diferentes grupos sociais frequentavam o teatro, sua convivência não era harmônica, muito menos igualitária. A própria configuração interna do teatro distinguia as classes sociais, estabelecendo o lugar de cada espectador. “Pela divisão interna do teatro e pelo preço dos ingressos, é possível identificar como o público se distribuía na sala de espetáculos”, lembra a autora no livro publicado pela editora Paka-Tatu em 2010.

No primeiro pavimento, estavam os camarotes, espaços reservados às famílias da elite, protegidas do contato direto com os outros espectadores. O segundo pavimento abrigava o camarote presidencial, enquanto o terceiro e o quarto pavimentos eram ocupados por diferentes ordens de camarotes e pelo “Paraíso”, o setor onde o ingresso era mais barato e destinado às classes populares.

Um público diferenciado e vigiado

Até a entrada no teatro era diferenciada. Enquanto o restante do público só podia acessar a casa de espetáculos 15 minutos antes das apresentações, as famílias da elite podiam ingressar no espaço assim que chegavam. Em dias de chuva, por exemplo, seus transportes iam até a entrada coberta para maior conforto. “Esses privilégios não agradavam àqueles que tinham de esperar do lado de fora para depois entrar apressadamente, daí a reação, as chacotas, quando as famílias passavam”, comenta Rose.

Além dos privilégios da elite, os demais espectadores eram “vigiados” social e policialmente. A administração do teatro mantinha policiais “especializados” no interior da casa de espetáculos graças a um regulamento de 1883, que permitia a atuação da força policial para manter a ordem e a moralidade no lugar. A polícia do teatro fiscalizava desde a venda de ingressos até o comportamento do público, tentando garantir que as normas impostas pela elite belenense fossem seguidas.

“Em conformidade com a política do Império, para a qual a política tinha funções mais relacionadas ao ordenamento da cidade do que exatamente à repressão, estabeleceu-se a Polícia do Theatro, com membros da Guarda Urbana, subordinada à Chefia de Polícia da Província. O administrador e o chefe de polícia tornaram-se as autoridade máximas dentro do teatro”, explica a pesquisadora na obra publicada como resultado de sua dissertação de mestrado.

O mesmo regulamento também restringia manifestações públicas e culturais no teatro proibindo gritos, palavras obscenas, tumultos e até mesmo batuques, sambas e carimbós nos espaços comuns. Essas medidas reforçavam o controle sobre as classes populares e limitavam suas formas de expressão cultural. “O regulamento, assim, controlava a apropriação do teatro por parte dos usuários, dando um peso maior aos deveres, com suas respectivas punições, do que aos direitos”, conclui a autora.

O Paraíso como lugar privilegiado para manifestações

Mas a repressão ou as normas de conduta impostas pela elite eram recorrentemente burladas pela “Quarta Ordem”, as classes populares. Frequentadores do último pavimento, o “Paraíso”, esse grupo só podia pagar os ingressos mais baratos. Local onde geralmente as manifestações políticas e culturais ocorriam, esse espaço ficou marcado como um local de inquietação e resistência, associada a desordem, exigindo uma vigilância redobrada da polícia.

Essas tensões e disputas em um espaço historicamente movido pelas expectativas de seus frequentadores mais nobres, principalmente como um lugar de diferenciação social, como um lugar de culto às artes eruditas e elitizadas, por um lado simbolizava a sofisticação cultural de Belém, mas também representava a resistência social de grupos de classes menos abastadas economicamente. No fim das contas, o teatro não recebia apenas espetáculos artísticos, mas também era capaz de reproduzir a realidade social marcada por exclusões, privilégios e resistências.

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