Entre os dias 8 e 30 de março, Belém será palco de um grande encontro de companhias de teatro autoral do Brasil, o “Escambo: Rede Parente”, um intercâmbio que conecta a produção cênica de três regiões do país. Além dos espetáculos, o público poderá participar de mesas públicas e oficinas. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas online. A programação ocorre no Teatro Margarida Schivasappa, no Casarão do Boneco e no SESC Casa de Artes Cênicas.

Por Kelvyn Gomes/Imagem: Divulgação
Ao longo de quatro finais de semana, o público poderá assistir a espetáculos de grupos do Pará, Amazonas, Mato Grosso do Sul e São Paulo no projeto contemplado pela Bolsa Funarte de Teatro Myriam Muniz e idealizado pela Cia.Cisco, de São Paulo, formada por Edgar Castro, Donizeti Mazonas e Vinícius Torres Machado.
A proposta do coletivo é dinamizar o cenário teatral, conectando artistas de diferentes territórios e desafiando visões estereotipadas sobre as regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil. “Essas trocas geralmente ficam restritas a determinados territórios, como Sul e Sudeste. Queremos contribuir para dissipar essas desigualdades e fortalecer o teatro autoral produzido fora desse eixo”, destaca Edgar Castro, dramaturgo paraense.
Após sua passagem por Belém, o Escambo seguirá para Manaus, Campo Grande e São Paulo, promovendo mais de 50 atividades e fortalecendo o intercâmbio entre diferentes coletivos teatrais. “O Escambo é um gesto de resistência, um espaço de conexão entre pessoas que compartilham o desejo de uma sociedade mais justa e pacífica”, conclui Edgar.
Mais informações sobre o projeto e a programação podem ser acompanhadas pelas redes sociais @projetoescamboredeparente.
Histórias fora do eixo
A programação em Belém traz espetáculos que exploram diferentes linguagens e temáticas. “MOMO – Um ato poético para testemunhas”, do grupo paraense Usina, um monólogo autobiográfico de Alberto Silva Neto. A peça parte de cartas trocadas entre seu pai e avô nos anos 1960, além de um texto escrito pelo ator após a morte do pai, em 2007. Em cena, Alberto se desafia a realizar um ato de sinceridade, transitando entre choro e riso, doença e cura, em uma encenação despojada de artifícios cênicos.
De Manaus, o espetáculo” HUMA/”, de Francisco Rider e Ly Scantbelruy, apresenta a jornada de uma mulher que vive em um “mundo-peste”, metáfora das violências e opressões que atingem corpos considerados indesejados pelos padrões normativos. Crescendo durante a ditadura civil-militar (1964-1984), a protagonista se manifesta contra esse cenário e desafia as barreiras impostas à sua existência. O título da peça carrega simbolismos: a barra representa tanto os desafios existenciais da personagem quanto um corte dramático na palavra humanidade.
Do Mato Grosso do Sul, o Coletivo “Fulano di Tal” traz “A fabulosa história do guri-árvore”, inspirado na obra de Manoel de Barros. O espetáculo celebra a infância e a imaginação por meio do teatro de objetos e das histórias compartilhadas pelos irmãos Abílio e Palmiro. Personagens como Bernardo, Bugrinha e o próprio vovô Manoel compõem o universo lúdico da peça, que conta ainda com trilha sonora original.
Encerrando a programação, a Cia.Cisco, de São Paulo, apresenta “Com os Bolsos cheios de Pão”, do dramaturgo Matei Visniec. A peça acompanha dois homens que discutem sobre um cachorro jogado em um poço, sem agir para resgatá-lo. O embate verbal e as disputas personalistas entre os personagens se transformam em uma metáfora política e social sobre a sociedade contemporânea, marcada pelo excesso de discursos e pela escassez da escuta.