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Por Kelvyn Gomes/ Imagem: acervo pessoal

Cria do bairro do Tapanã, o professor, pesquisador, fotógrafo e ativista social Rafael da Luz tem se dedicado a não apenas problematizar a imagem negativa construída sobre a periferia e os corpos negros, mas a lançar um outro olhar sobre ela, permeado de amor, afeto, resiliência e potencialidades. Eu conversei com o fotógrafo sobre sua trajetória, fazer artístico e processo criativo para o Perfil Jambu.

O despertar para uma outra forma de enxergar o mundo

Rafael Fernando lembra que sempre foi uma criança curiosa e desde criança ficava encantado com a câmera fotográfica. O equipamento pouco acessível naquela época lhe despertava encantamento e o levou a ingressar, com 24 anos, na Pastoral da Comunicação na paróquia da comunidade onde cresceu. “E o pessoal acabava me dando a câmera. Eu gostava muito. E eu procurava pegar os momentos que eu sentia, que eu achava que era mais bonito, momentos que as pessoas expressavam seus sentimentos e aí tu vai crescendo com uma impressão diferente, né?”, lembra o fotógrafo.

Ele explica que naquele momento, sua primeira impressão sobre a fotografia relacionava a qualidade do fazer fotográfico ao valor monetário do equipamento, o que, de certa forma, acabou lhe criando um bloqueio sobre a possibilidade de fotografar, até seu caminho se cruzar com o da jornalista Andreza Gomes. “Andreza me incentivou a fazer o curso (de fotografia) no convênio, então quem me colocou no mundo das artes de certa forma foi a Andreza Gomes”, comenta Rafael.

Com a impossibilidade financeira de arcar com os altos custos dos cursos de fotografia oferecidos na cidade, foi uma outra amiga quem o indicou a procurar o Núcleo de Oficinas Curro Velho, antiga Fundação Curro Velho para poder aperfeiçoar a técnica do fazer fotográfico. “Em 2014 eu inicio na fotografia, vou entendendo como são os procedimentos, vou compreendendo a partir das vivências com as pessoas que fotografam de outra forma que a fotografia independe do equipamento e aí já vai para uma perspectiva subjetiva, né? Que é a do olhar, né? É o sentir, tocar, falar, a fotografia tá nessas dimensões, né? Simbólicas, estéticas, dos sonhos, dos sentimentos também”, explica o fotógrafo.

Além de uma forma de expressão artística e de enxergar o mundo, a fotografia para Rafael Fernando também se apresenta como uma forma de exercício político e de se apresentar ao mundo. “Mas acho que a curiosidade, a forma de ver o mundo e de recortar esse mundo, né? Pela fotografia, amplia as dimensões simbólicas também. Depois ela ganha uma dimensão pra além da estética, uma dimensão do exercício político da mobilização social”, argumenta.

Fotografia, experimentação, arte, política e ação

Todo artista tem uma forma peculiar de viver e enxergar o mundo que refletem no seu fazer artístico. Seu desenvolvimento como fotógrafo está atrelado a possibilidade de descortinar o mundo visual e teoricamente a partir da fotografia graças ao que ele mesmo atribui, Curro Velho e o processo de sensibilização e arte educação. Olhando para trás, uma década depois, ele vê a fotografia como “uma forma de ser e estar no mundo, as possibilidades de criar, inventar e principalmente de narrar, de narrar a minha realidade”, completa.

Expressão de seu tempo e espaço, de suas realidades, visões e imaginários, a fotografia reflete o “lugar” de onde ela vem. De forma dialógica, ela se faz no espaço da comunidade, no lugar do coletivo, da experiência e da experimentação. “A fotografia acontece num contexto, né? A partir do seu contexto ela estabelece uma função social diferente, tem um aspecto intrínseco do vivido, daquele olhar e daquela subjetividade”, reflete o artista que já expôs e foi premiado em editais locais, nacionais e internacionais.

Recentemente, Rafael, que também é escritor e pesquisador na área das relações etnico-raciais, lançou o livro “Devir Periférico da Esperança”, onde reflete, a partir de suas próprias experiências, reflete sobre como a periferia encontra maneiras criativas de ressignificar a violência e transformar a raiva em ação coletiva. Sua narrativa prioriza não as dores, mas a resiliência, os afetos e as potencialidades da periferia viva em sua coletividade. “O afeto é uma força que precisa ser compartilhada, assim como a fotografia. E por que falar da periferia? Porque a periferia foi, historicamente, apagada, foi estereotipada. E aí, nessa dimensão, quando eu percebi uma fotografia documental, ou quando eu observava como essas fotografias eram projetadas para alimentar o imaginário social como processos de depreciação, de estigma, de violência, de criminalização, todos esses aspectos eram projetados na periferia. E aí, por que o afeto? Por que diante de tudo isso, como alguém pode projetar o afeto onde só existe a violência? Qual a dimensão que essa violência provoca na subjetividade dessas pessoas que tão consumindo essas imagens? Então falar da fotografia, pra mim, vem como exercício político de romper com essa narrativa hegemônica, violenta. E pela fotografia construir uma outra imagem pelos sujeitos que fazem parte da minha vida”, explica Rafael.

Pedagogo da rede municipal de ensino, ativista social e educador popular, Rafael Fernando tem atuado em espaços de educação não formal, em projetos sociais voltados à arte, cultura e educação. Seu fazer educativo e a relação de ensino-aprendizagem que estabelece com seus aprendentes também surge como um ato revolucionário. É neste sentido que a arte educação surge como um movimento de resistência, mas, sobretudo, de existência. “O papel da fotografia, das artes na periferia é uma reivindicação de existência, o direito de viver, é pensar na justiça social, no ato político, na mobilização, na organização de sujeitos e sujeitas da periferia”.

Para as novas gerações, Rafael deixa um recado. Ele garante que com a democratização da fotografia com o advento e difusão da fotografia digital, possibilitado principalmente pelos novos suportes e tecnologia mobile, esse se torna um campo viável de atuação social e profissional. “Para os jovens eu recomendaria uma organização, eles trabalharem de forma coletiva, a gente pensar num papel que a comunicação popular teve na vida dos sujeitos e sujeitas da Vila da Barca. E aí, quando eu começo a fotografia? Quando eu pego um celular hoje, eu acho que esse é o início e a fotografia não está descolada do ser humano”.

Referências, interpretações e mobilizações

Além das experiências ao longo da vida, as reflexões de Rafael Fernando também são pautadas por intelectuais que ajudam a refletir sobre sua própria realidade. São pensadores e pensadoras negros, de grupos sociais marginalizados ao longo da história, sobretudo mulheres negras que o ajudam a estranhar, analisar, desconstruir e reinterpretar a realidade. “Sou muito marcado pela escrita feminina, vamos lá, vamos pensar na Cora Coralina, né? Conceição Evaristo. A Caríssima e querida Maria Carolina de Jesus e aí vem Beatriz Nascimento, Bell Hooks”, entre outros nomes citados pelo autor e fotógrafo.

Ele lembra também de Evgen Bavcar, o fotógrafo esloveno que perdeu a visão aos 12 anos. A experiência estética de Bavcar ajuda, segundo Rafael, a compreender os sentidos e a sensibilidade que giram em torno da fotografia como uma experiência humana no mundo, não apenas técnica. “As formas de sentir e tocar o mundo variam para cada pessoa. A fotografia não é exclusiva dos videntes; pessoas cegas também produzem imagens e percebem o mundo de maneiras únicas. O fotógrafo cego esloveno dizia que fotografa aquilo que imagina, mostrando que a fotografia vai além da técnica. Mais do que um recurso técnico, ela é um meio de expressar subjetividades e criar imagens a partir da imaginação e da vivência humana”, reflete.

O olhar afetuoso de Rafael da Luz sobre as pessoas, os processos, os lugares, principalmente aqueles que foram subalternizados, criminalizados ao longo da história nos ajuda a repensar sobre o conteúdo da fotografia e de como ela impacta na construção de imagens e imaginários sobre esses grupos. A fotografia e as reflexões do artista e sua motivação não apenas de continuar, mas de trazer outros semelhantes consigo, são o combustível necessário para uma revolução nas artes para que sejam menos racistas, machistas e classistas. “Acho que uma informação muito importante pra quem quer começar a fotografar é que arrisque, sabe? Se lance nesse mundo, mas a partir da sua realidade. Não tenha vergonha, não rebaixe sua forma de ver e sentir, tocar o mundo, às vezes isso é um processo de autoestima, né? Existem muitas pessoas que vão desmerecer, desqualificar nosso trabalho e a gente aprende errando. Diante de tanta, entre aspas, né? Tecnologia computacional, dados, acho que é isso”, concluiu.

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