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Enquanto pesquisava para minha dissertação de mestrado, mergulhava em mapas antigos, fotografias que preservavam o tempo em sua superfície e relatos impregnados de um misto de fascínio e angústia. Era uma viagem pelas memórias da floresta, guiada pelos vestígios deixados por Henri e Octavie Coudreau, cuja paixão pela Amazônia revelava mundos onde progresso e preservação pareciam coexistir.

Por Durval de Souza/Imagens: acervo da Bibliothèque Nationale de France e reproduções do livro Voyage au Trombetas

Os Coudreau não viam apenas árvores e rios; enxergavam um futuro, uma utopia amazônica onde a civilização se fundia com a natureza, respeitando-a e aprendendo com ela. Henri sonhava com um “bom selvagem” como símbolo do equilíbrio entre o humano e o natural, enquanto Octavie, com sua sensibilidade ímpar, registrava rostos, paisagens e histórias que davam vida às visões de seu marido. Juntos, formavam uma dupla cuja cumplicidade transcendia o tempo.

Imagens: acervo da Bibliothèque Nationale de France e reproduções do livro Voyage au Trombetas

Naquela época, mal poderia imaginar que o legado desse casal ainda ecoaria tão forte no presente. Em 2025, com Belém escolhida como sede da COP 30, sinto que Henri e Octavie, com suas lentes, mapas e palavras, já apontavam para o que hoje chamamos de desenvolvimento sustentável. A cumplicidade deles era evidente: enquanto Henri projetava utopias, Octavie documentava com rigor e sensibilidade as interações humanas que poderiam torná-las possíveis.

A Utopia Amazônica dos Coudreau

Henri acreditava que o povo amazônico — ribeirinhos, indígenas, quilombolas, caboclos — era a chave para moldar uma civilização que respeitasse o meio ambiente. Esses habitantes, para ele e Octavie, não eram apenas parte da paisagem; eram protagonistas de um modelo de sociedade que unisse saberes ancestrais e avanços científicos. Enquanto Henri detalhava as paisagens e questionava as práticas predatórias, Octavie registrava o cotidiano das comunidades com um olhar afetuoso e crítico, mostrando que a vivência amazônica não era uma exclusividade masculina, mas uma construção compartilhada.

Imagens: acervo da Bibliothèque Nationale de France e reproduções do livro Voyage au Trombetas

Octavie não apenas acompanhava Henri; ela era uma cronista da Amazônia em sua própria essência, registrando rostos, paisagens e histórias com uma precisão que unia ciência e empatia. Sua contribuição transcende os relatos de viagem — era ela quem humanizava o sonho amazônico, enfatizando que a convivência entre progresso e natureza dependia de olhares múltiplos, femininos e masculinos, integrados ao território.

Imagens: acervo da Bibliothèque Nationale de France e reproduções do livro Voyage au Trombetas

Um Olhar para a COP 30 em Belém

Belém, nomeada por Henri como a “cidade do Pará”, carrega um simbolismo profundo. Não é apenas o ponto de partida de muitas das expedições dos Coudreau, mas também uma cidade que hoje pode liderar uma revolução global na luta pelo meio ambiente. Quando penso nos debates que acontecerão na COP 30, imagino como Henri teria se encantado em ver que, finalmente, a Amazônia é reconhecida como peça central na busca por um futuro sustentável.

O que os Coudreau discutiam no século XIX — a convivência entre progresso e prudência — é o que a COP 30 precisa incorporar. Projetos que respeitem as comunidades tradicionais, que promovam energia limpa e que protejam a floresta devem estar no centro das negociações. Assim como eles defendiam que o povo amazônico tinha um papel vital na preservação da região, a COP deve ouvir essas vozes.

O Povo Amazônico e a Utopia Atual

A visão dos Coudreau sobre o povo amazônico me inspira até hoje. Não se tratava apenas de catalogar culturas ou descrever costumes. Para eles, esses povos eram guardiões de um conhecimento que o mundo moderno havia negligenciado. Henri e Octavie entendiam que a Amazônia não deveria ser explorada como um recurso, mas vivida como um lar.

Na COP 30, precisamos resgatar essa utopia. Precisamos olhar para a Amazônia não como uma commodity global, mas como um espaço de renovação espiritual e ecológica. Belém, com sua história e beleza, pode ser o palco de um novo pacto ambiental, onde o mundo reconheça que só podemos enfrentar a emergência climática se aprendermos com aqueles que vivem em harmonia com a floresta.

Um Chamado à Imaginação

Escrevendo sobre os Coudreau, percebo que seu legado não está apenas nos mapas e fotografias que deixaram, mas na parceria que os transformou em exploradores de mundos — tanto externos quanto internos. Henri, com suas ideias e mapas, e Octavie, com sua voz única e registros visuais, nos mostram que a utopia amazônica é um projeto coletivo. Que Belém, a cidade que inspirou ambos, seja o palco para um novo pacto ambiental global.

Que as lentes de Henri e Octavie nos guiem novamente, mostrando que a utopia é possível. Que Belém, a cidade que tanto inspirou esse casal visionário, se torne o coração de um movimento global pela justiça climática e pela preservação da vida. Afinal, como eles já sabiam, a Amazônia não é apenas um lugar — é uma promessa para toda a humanidade.

Respostas de 2

  1. Que a COP seja mais que um evento, seja realmente a construção de um pacto real para o novo mundo com sustentabilidade econômica e ambiental, inclusivo e coletivo. Nada sobre nós, sem nós.

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