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Por Kelvyn Gomes/Imagem: Bruno Cecim, Agência Pará

Por séculos, a história de Belém tem sido inseparável das águas. Desde a ocupação colonial, no século XVII, até os dias atuais, os rios, igarapés, lagos da região e a chuva característica da cidade influenciaram diretamente a estruturação urbana da capital paraense. Para compreender essa relação histórica e os desafios contemporâneos da cidade, o Portal Jambu conversou com Juliano Pamplona, arquiteto e urbanista, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará (UFPA).

O professor explica que desde o século XVII, fortificações foram construídas estrategicamente às margens dos rios e lagos para controle e defesa do território. Já no século XVIII, Belém se consolidou como entreposto comercial de produtos amazônicos e no século XIX novas tecnologias de saneamento urbano transformaram a relação da cidade com suas águas. “Podemos falar de Belém como uma cidade amazônica secular que, como as demais, tem sua estruturação urbana e regional relacionada com o uso da água”, explica Juliano Ponte.

No século XX, com a ditadura civil-militar (1964-1985), houve remoção massiva de populações pobres das margens dos rios, sem respeito ao direito à moradia digna. Hoje, segundo Juliano, “a ideia do consumo visual da paisagem da beira da água se torna um ativo econômico, novamente expulsando populações vulneráveis e criando uma paisagem elitizada e turistificada”.

Com a modernização da cidade, Belém viu seus rios e igarapés serem transformados em canais de escoamento de águas pluviais e despejo de esgoto. “A racionalização capitalista da paisagem urbana excluiu socialmente populações pobres, negras e indígenas, ao mesmo tempo em que gerou grandes benefícios econômicos para as elites urbanas”, afirma o arquiteto.

Apesar disso, há permanências de usos tradicionais, como o banho de igarapé, a pesca e o transporte fluvial, o que demonstra certa manutenção de práticas e hábitos culturais das populações amazônicas. No entanto, “somos há séculos uma cidade com forte clivagem social, que expõe os pobres aos dejetos”, pondera o professor.

A água como elemento cultural e histórico

A presença da água sempre foi um fator determinante para a ocupação territorial. Juliano lembra que, desde a antiguidade, as populações preferiam constituir povoações ao redor ou próximo de rios, lagos, mares ou, no nosso caso, igarapés, para facilitar o acesso ao bem de consumo imprescindível à sobrevivência humana.

Ele cita o historiador britânico Simon Schama para exemplificar como o controle sobre os rios sempre foi um símbolo de poder. “A Igreja Católica reafirmou seu domínio territorial sobre os continentes através da Fonte dos Quatro Rios, em Roma, no século XVII, com esculturas representando os grandes rios do mundo”.

A história de Belém e do belenense e sua relação com a água, nos ajuda a repensar que esta relação é um desafio urgente. A revitalização dos rios e igarapés da cidade exige soluções que respeitem tanto o meio ambiente quanto às populações vulneráveis, evitando a repetição de padrões excludentes de urbanização. “Não devemos romantizar o passado, e sim pensá-lo criticamente”, ressalta Juliano Ponte.

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