Começa amanhã, 14, e vai até vai até 28 de janeiro, a 4ª edição do “Festival de Cinema Zélia Amador de Deus”, com objetivo de buscar o reconhecimento e valorização da diversidade e potência do cinema negro.
O festival propõe um encontro entre histórias, saberes e lutas, em um circuito que vai do centro histórico ao coração das comunidades ribeirinhas na região das ilhas, envolvendo formação audiovisual, sessões inclusivas e celebrações culturais. Este ano, a homenageada é a quilombola Felipa Maria Aranha, símbolo de resistência e liderança no Baixo.

Por Kelvyn Gomes/Imagem: Jarid Arraes
A primeira parte da programação contará com oficinas em Icoaraci, do dia 14 ao dia 17 de janeiro, oferecendo capacitação em fotografia para cinema, direção de arte e continuidade, ministradas por profissionais amazônicos. Já no dia 18, acontece a cerimônia de abertura oficial também em Icoaraci, com o documentário Ginga Reggae, da cineasta maranhense Nayra Albuquerque, seguido de uma festa cultural com Os Falsos do Carimbó e a DJ Cleide Roots.
No dia 19, na Ilha de Cotijuba, cineastas convidados participarão de uma vivência com comunidades de matriz africana, acompanhada de um passeio de bicicleta pelas praias de água doce, seguido por exibições no Mirante da Pedra Branca.
Outra experiência imersiva ocorrerá na Ilha do Maracujá, no dia 22 de janeiro, com o “Fórum de Cineastas Negros”. O encontro, apoiado pela Associação de Profissionais Negros do Audiovisual (Apan), trará debates sobre distribuição, coprodução com cinema indígena e técnicas de montagem com mestres como Bitate Juma de Rondônia e os paraenses Beka Munduruku e Mário Costa.
O encerramento, no dia 26 de janeiro, será no Balneário Curuperé, em Outeiro, celebrando os vencedores com a banda Fogoyó e outras atrações culturais.
Ícone da Luta Quilombola
Nascida possivelmente entre 1720 e 1730, Felipa Maria Aranha, homenageada na edição deste ano, organizou o Quilombo do Mola e liderou a Confederação do Itapocu, uma aliança de quilombos que resistiu bravamente às tropas portuguesas no Pará. A história da líder é um testemunho da força coletiva que o festival busca reverberar, ao dar voz a cineastas negros e indígenas que, assim como ela, transformam adversidade em criação e luta em legado cultural.
Reconhecimento e valorização
Com foco no fortalecimento das políticas afirmativas e na descentralização do cinema brasileiro, o Festival de Cinema Negro Zélia Amador de Deus, organizado pela produtora Cine Diáspora, coloca em pauta os desafios de acesso e representatividade no audiovisual. Lu Peixe, diretora do festival, destaca o impacto desigual dos investimentos na cultura e a importância de festivais deste tipo. “Dos R$742 milhões liberados pelo Fundo Nacional da Cultura entre 2009 e 2019, 51% foram concentrados no eixo Rio-São Paulo. Precisamos descentralizar recursos e fortalecer iniciativas locais, especialmente na Região Norte, onde a produção cultural de pessoas negras e indígenas enfrenta imensos desafios estruturais”.
O festival pretende ser uma plataforma de articulação e formação, reunindo cineastas de sete estados para discutir políticas públicas, estratégias de financiamento e coprodução com povos indígenas.
Inclusão e Acessibilidade
O festival também irá promover uma sessão especial para pessoas com deficiência visual no dia 24, no Museu da Imagem e do Som, com audiodescrição para o documentário “O Som das Redes”, do produtor e realizador audiovisual baiano Assaggi Piá. A organização disponibilizará transporte adaptado em parceria com grupos de acessibilidade, uma forma de garantir acesso universal ao cinema.
Troféu Zélia Amador de Deus
Com mais de 40 obras selecionadas, o festival destacará talentos de diversas linguagens. O Troféu Zélia Amador de Deus premiará curtas-metragens, animações e videoclipes, com categorias exclusivas para produções da Amazônia. Além de prêmios em dinheiro totalizando R$9,5 mil, associações como a Associação de Profissionais de Edição Audiovisual, a EDT, e a Associação Brasileira de Críticos de Arte, a ABCA, oferecerão anuidades e menções honrosas para filmes com destaques técnicos e criativos.
Nomeado em homenagem à professora, atriz e ativista Zélia Amador de Deus, o festival se afirma como um espaço de “aquilombamento” no audiovisual, impulsionando a criatividade de uma nova geração de realizadores negros e indígenas, afirmam os organizadores. Desde sua primeira edição, já exibiu mais de 100 filmes e formou dezenas de profissionais, renovando o imaginário cinematográfico com a força da Amazônia negra e originária.
Além do troféu e das premiações em dinheiro, as plataformas Todesplay e Hands Play licenciarão produções amazônicas, fortalecendo a distribuição digital de obras independentes.