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Por Suane Barreirinhas/Imagem: acervo Cop das Baixadas

Eles chegam sempre juntos, como quem anuncia o amanhã. Não esperam convite, não pedem licença, apenas ocupam o espaço com seus tambores, cadernos, ideias e sonhos. São jovens de Belém, das baixadas, das ilhas, da Amazônia que pulsa. Desde 2022, escolheram se reunir para construir uma conferência de clima para e por todos seus territórios.

A conferência popular nasceu desse desejo de estar junto, de trocar saberes, de transformar o cotidiano em ação política. Nela, a democracia se apresenta de forma concreta: no microfone aberto que dá voz a quem nunca teve, no grafite que colore os muros, na poesia que se solta da boca de uma adolescente, na roda de carimbó que encerra um dia inteiro de debates. Política e cultura não são opostos, são parte da mesma teia que sustenta a vida coletiva.

E é essa juventude que, diante das dores da cidade e dos impactos das mudanças climáticas, escolhe plantar esperança. São jovens que entendem que não existe justiça climática sem justiça social, que sabem que falar de meio ambiente é falar de moradia, saneamento, de transporte, de dignidade. A cada território que defendem, afirmam que a Amazônia é feita de gente e que a crise climática não é discurso distante, é realidade diária.

Dessa inquietação nasceu a COP das Baixadas. Uma conferência popular que democratiza os grandes debates sobre clima e futuro. Porque os jovens sabem que não basta esperar pela COP oficial, aquela das grandes cúpulas e discursos ensaiados. É preciso criar uma COP própria, feita por e para quem sente na pele os efeitos da maré que sobe, da chuva que alaga, da seca que castiga. A COP das Baixadas é um espaço onde a política fala a língua do “setor”, onde o clima não é só pauta internacional, mas vida cotidiana.

No ano em que Belém recebe a COP 30, quando os olhos do mundo se voltam para a Amazônia, esses jovens ousam mais uma vez. Dias 22, 23 e 24 de agosto, eles se reúnem para realizar a 3ª edição da COP das Baixadas. Com coragem e criatividade, afirmam que a Amazônia não é apenas floresta, são também baixadas, quilombos, palafitas, juventude que sonha e luta.

Essa conferência popular é mais que um evento, é um movimento. É prova de que a juventude não espera que o futuro chegue, ela mesma o constrói. No batuque, na palavra, na organização, eles mostram que mudança não é promessa distante, mas prática presente.

E se alguém ainda pergunta como será o futuro, basta olhar para esses jovens. O futuro tem rosto de menina que escreve poesia no caderno da escola, de rapaz que levanta cartaz em mutirão, de coletivos que se reúnem embaixo de um telhado simples para discutir soluções globais a partir do território. O futuro tem cheiro de açaí fresco batido na cuia, tem o barulho da maré que enche e esvazia, tem a coragem de quem não se cala diante da injustiça.

A COP das Baixadas é o lembrete de que política e cultura se cruzam para abrir caminhos. É também a certeza de que o amanhã já começou, com uma juventude mobilizada, criativa e consciente. A Amazônia não fala apenas pela floresta, fala também pelas vozes que ecoam das baixadas de Belém, dizendo ao mundo inteiro que mudança real só acontece quando é coletiva.

O futuro, afinal, já está aqui. E fala a língua da juventude.

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