Entrevista com Milene de Souza
Não tem como não olhar para as ilustrações e animações de Milene de Souza e não perceber as referências a nossa cultura. O próprio user do perfil da artista é uma característica que não sai da boca do povo. O “Endoida”, perfil mantido pela artista em uma mídia social, é marcado por cores vibrantes e símbolos do dia a dia da cidade e principalmente da cultura da periferia de Belém. Ilustradora e animadora, Milene encontrou na arte digital uma forma de representar a identidade paraense.
O que começou como uma simples paixão pelo desenho, hoje tornou-se um trabalho reconhecido e compartilhado por milhares de pessoas. A partir de ilustrações e animações que capturam o cotidiano da região Norte, Milene transforma sua arte em um espaço de valorização cultural e conexão com suas raízes. E foi para conhecer um pouco mais sobre as referências e trajetórias do perfil “Endoida” e da artista por trás dele que o Portal Jambu conversou com Milene de Souza, artista visual paraense.


Por Kelvyn Gomes/Imagens: Reprodução Mídias Sociais
O traçado paraense
Desde criança, Milene sempre teve o desenho como parte de sua vida. “Cresci admirando ilustradores, cartunistas e animadores, e levei essa paixão para a minha vida adulta e profissional”, conta. Mas foi em 2020 que começou a explorar a ilustração digital e, posteriormente, mergulhou na animação.

Apesar de sempre ter gostado de desenhar, a escolha pelo universo visual da cultura regional não foi planejada, mas, paraense nata, não conseguiu fugir de suas raízes e por isso surgiu naturalmente. “Tudo começou quando fiz ilustrações inspiradas em músicas paraenses. Elas chamaram atenção nas redes sociais, e foi aí que criei uma página no Facebook e comecei a me perguntar sobre o que eu realmente queria desenhar”, lembra.
O perfil de Milene começou despretensiosamente, mas hoje cumpre um papel importante. É um espaço de criação feito por paraenses e para paraenses. “Mais do que entreter, quero que ele sirva para manter nossa identidade cultural viva, fortalecendo nossa conexão em um meio digital que, muitas vezes, nos afasta das nossas próprias raízes”.
Essa questão levou a artista a uma jornada de observação e redescoberta não apenas sobre nossa cultura, mas sobre si. “Percebi que aspectos do dia a dia, como a forma como falamos, nos vestimos e interagimos, são nosso diferencial. Não só dos paraenses, mas de toda a região Norte. São elementos que, para nós, são comuns, mas que nos tornam únicos em relação ao resto do país. Decidi, então, concentrar meus esforços criativos nessa temática”, falou com orgulho sobre suas inspirações na cultura e no cotidiano local.
Criar Sem Roteiro
Apesar da consistência nas postagens, Milene revela que não segue um processo criativo rígido, ela deixa aflorar o talento e as inspirações que vem das suas observações do cotidiano. “Se eu estou trabalhando, comendo ou fazendo qualquer outra coisa, minha mente está sempre funcionando de maneira criativa. As ideias aparecem o tempo todo, porque passei a observar tudo de forma mais crítica”.
Seu trabalho é resultado de uma visão aguçada sobre o cotidiano, a cidade e suas experiências no dia a dia da capital paraense. “As experiências do dia a dia, o que vejo, ouço, consumo na internet, tudo pode virar arte. Às vezes, uma conversa casual ou uma lembrança antiga me dá uma ideia que logo transforma-se em ilustração”, explica a artista.

O formato das criações ela define no momento da produção. “Começo rascunhando, e então as cores, formas e detalhes surgem naturalmente. Às vezes, só quando termino percebo que a ideia pedia um movimento, e aí transformo em animação. Em média, levo de quatro a cinco horas para concluir cada trabalho”.
Entre Fé e Humor
Quando perguntada sobre suas obras favoritas, Milene destaca duas criações que marcaram sua trajetória. A primeira é sua ilustração anual de Nossa Senhora de Nazaré. “No início da pandemia, fiz uma promessa e, desde então, todo Círio produzo uma ilustração acompanhada de uma carta aberta para a Nazinha. Essa é minha favorita, porque reflete como eu a enxergo”. Para ela, a relação com Nossa Senhora de Nazaré é pessoal e, ao mesmo tempo, coletiva. “Acredito que a Nazinha se apresenta ao povo de acordo com a forma como cada pessoa a percebe. A minha Nossa Senhora amazônica é como eu a vejo e sinto. E cada ano essa ilustração se torna minha preferida, porque é um reflexo desse sentimento”.


Já a ilustração mais querida pelo público veio de uma auto confissão. “Há quatro anos, fiz um desenho com a frase: ‘Carrego o peso de ser paraense, mas não sei dançar melody’. Era algo pessoal, mas muita gente se identificou. Quando refiz a arte em 2024, ela alcançou mais de 300 mil contas e teve 20 mil interações. Descobri que não estou sozinha nessa”, brinca.
O sucesso da ilustração revela um traço forte da produção de Milene: a capacidade de transformar experiências pessoais em conteúdos que dialogam com a vivência de muitas outras pessoas.

“Muita gente se sentiu representada porque, no fundo, todo paraense já sentiu esse peso cultural em algum momento. Seja por não saber dançar o ritmo da sua terra ou por não conhecer a fundo algo que parece tão natural para os outros”. E isso é fato, a maneira despojada e autêntica de falar sobre si e sobre a cultura local tem chamado a atenção de admiradores, só em um dos perfis em uma mídia social, a artista já conta com mais de 20 mil seguidores.
A Influência da Cultura Urbana
Criada em Santa Bárbara do Pará, Milene cresceu com uma vivência que ela considera mais interiorana. “Belém, para mim, era algo distante, que eu só via de seis em seis meses. Isso mudou no ensino médio, quando comecei a estudar na capital e a conviver com pessoas de bairros periféricos”.
Essa aproximação teve um impacto significativo na sua arte. “Hoje, frequento esses bairros e vejo como as coisas realmente funcionam. O contato com o cotidiano urbano enriqueceu meu repertório cultural. A cultura de Belém, como metrópole, é riquíssima, e tento trazer essas vivências para minhas postagens da forma mais criativa possível”.

O Crescente Interesse Pela Cultura Paraense
A artista vê com entusiasmo a valorização da cultura nortista, mas se mantém alerta. “Do ponto de vista da criação de conteúdo, há um grande potencial de crescimento. Porém, meu receio é que a cultura seja explorada de forma superficial por pessoas e marcas que não têm uma conexão real com ela”.

Para a ilustradora, é essencial que essa nova demanda fortaleça iniciativas locais de forma a valorizar e reconhecer suas potencialidades e talento. “O Norte tem uma profundidade cultural imensa, que vai além do que viraliza na internet. Temos as periferias urbanas, os povos ribeirinhos, os indígenas e toda a religiosidade. Acredito que devemos incentivar mais perfis, canais e criadores que abordem nossa cultura com a devida profundidade”.
Além disso, a ilustradora acredita que seu trabalho pode ajudar na construção de um olhar mais atento para a cultura local. “Muitas vezes, por estarmos tão imersos no nosso próprio cotidiano, deixamos de perceber a riqueza que nos cerca. Meu objetivo é justamente resgatar isso, seja por meio do humor, da arte ou da animação”.
Com traços marcantes e uma visão aguçada sobre sua cultura, Milene de Souza segue desenhando não só ilustrações, mas também pontes entre o digital e a identidade nortista.
Uma honra ter minha história e trabalho contado por esse portal!
Incrível, acompanho a página desde o início e é muito bom ver uma paraense falando do Pará e recebendo reconhecimento por isso