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Crônica: Ver-o-Peso, 398 anos

Por Kelvyn Gomes/Imagem: Reprodução “Belém da Saudade”

Um dos maiores símbolos da identidade da cultura belenense completa, nesta quinta-feira, 27 de março, 398 anos. Inaugurado em 1623, no antigo Porto do Pirí, há quase quatro séculos, o Ver-o-Peso surgiu como a Casa de “Haver o Peso”, um posto de aferição de mercadorias e arrecadação de impostos. Com o passar do tempo, tornou-se um dos maiores mercados a céu aberto da América Latina, além de um ponto de convergência entre tradição e modernidade.

Uma breve retrospectiva histórica

No século XVIII, Belém consolidou-se como o maior entreposto comercial da Amazônia. Produtos extraídos da floresta seguiam para mercados nacionais e internacionais, enquanto mercadorias do exterior chegavam para abastecer a região. O intenso fluxo comercial transformou a Casa de “Haver o Peso” no Ver-o-Peso que conhecemos hoje. O complexo arquitetônico e paisagístico de 26 mil metros quadrados, onde se misturam cores, cheiros e sabores da Amazônia, reconhecido como patrimônio histórico, é símbolo da cultura belenense.

A virada do século XIX para o XX, lembrado comumente pela euforia da economia da borracha e as relações estabelecidas com o capital e a cultura estrangeira trouxe consigo as influências da Belle Époque, e o Ver-o-Peso passou por uma grande reformulação. Entre 1899 e 1901, foram erguidos o Mercado de Ferro, o Mercado de Peixe, e o Mercado Francisco Bolonha, ou Mercado de Carne, projetos dos engenheiros Bento Miranda e Raymundo Vianna.

A estrutura metálica trazida da Europa, conta a memória, encaixotada em navios ingleses, foi montada às margens da Baía do Guajará, onde funcionava a antiga casa fiscal. Eram torres em estilo art nouveau e telhas do tipo Marselha, também conhecidas como telhas francesas, o Ver-o-Peso era uma dessas construções que simbolizavam, entre acordos e tensões, um intercâmbio cultural entre a Amazônia e as metrópoles europeias.

O século XX trouxe a ampliação da área e sua integração ao Centro Histórico de Belém, transformando-o no que conhecemos hoje: um complexo turístico, gastronômico e cultural que ganha vida não pela sua arquitetura, mas pela relação que as pessoas estabelecem com ele. Além dos mercados (de carne e de peixe), o Complexo do Ver-o-Peso engloba a Feira do Açaí, a Doca do Ver-o-Peso, onde ancoram as embarcações, a Avenidda Boulevard Castilhos França, o casario colonial e praças como a do Relógio e Dom Pedro II. O conjunto foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1977.

Um recurso de memória

O Ver-o-Peso é um ponto de encontro de saberes e tradições amazônicas. Entre as mais de duas mil barracas e casas comerciais populares, circulam vendedores de ervas medicinais, peixeiros, artesãos e feirantes que mantêm vivas as práticas tradicionais. A Feira do Açaí, por exemplo, acontece 24 horas por dia. Desde a euforia dos mercadores que começa ainda de madrugada, quando os barcos chegam carregados do fruto que movimenta a economia local, as noites quentes belenenses com as manifestações culturais como o carimbó e o samba da feira do açaí.

Lembro uma vez, ainda criança, de uma das muitas viagens que fiz em família para Cametá, no Baixo Tocantins, de onde meu pai é oriundo. Paramos na doca do Ver-o-Peso para abastecer o barco, era quase meia noite quando chegamos por lá. Fiquei maravilhado com aquele lugar que até então conhecia dos livros de História da escola. O Ver-o-Peso, definitivamente não era apenas a casa de haver o peso, não era só o mercado de ferro que outrora teria sido montado como peças de lego às margens da baía.

O Ver-o Peso era uma “sinestesia”, na minha memória, não há melhor forma de defini-lo. Os cheiros, as cores, se misturavam e explodiam como sabores. Era quase possível não imaginar o gosto de cada uma daquelas iguarias que vinham de todo canto, mesmo aquelas que eu nunca havia experimentado. Frutas, verduras, carnes e ervas finas frescas das quais é impossível pensar os hábitos e práticas alimentares da região.

Mas a diversidade não estava apenas nos produtos, ela estava nas pessoas. Homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, carregadores, vendedores, bebedores, jogadores, gente daqui e de lá, de longe, que muitas vezes percorrem dias de barco nos rios da Amazônia para abastecer a cidade.

Apesar de sua importância, o Ver-o-Peso enfrenta desafios como a necessidade de manutenção de sua estrutura histórica e melhorias nas condições de trabalho dos feirantes. A última grande reforma ocorreu em 1999, mas demandas por novas revitalizações seguem em pauta. Por isso, em fevereiro de 2024, a área entrou em uma nova reforma que se enquadra em uma das mais de 30 obras para receber a COP em Belém.

Reconhecido como uma das Sete Maravilhas Brasileiras em 2008, o Ver-o-Peso continua a ser um dos maiores cartões-postais de Belém. Entre os cheiros da floresta e os sabores da Amazônia, o mercado mantém viva sua essência como um espaço de troca, resistência e identidade cultural.

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