Há três décadas, a Conferência das Partes (COP) busca articular ações globais para combater a crise climática, em um processo extremamente lento e deficitário. Até o momento, nenhuma das edições conseguiu inserir de maneira significativa a cultura como um fator no combate às mudanças climáticas; ela sequer é pautada nas negociações oficiais. A conexão entre cultura e clima ainda é pouco clara para quem não vive em territórios ameaçados pelos extremos climáticos.

Por Amanda Pantoja e Eveline Mendes/ Imagem: Filipe Almeida
No entanto, para aqueles que dependem desses territórios, como povos originários e comunidades tradicionais, os efeitos das mudanças climáticas tornam-se cada vez mais evidentes. O modo como lidamos com a terra e os recursos que dela extraímos é cultural, e isso se reflete diretamente nas nossas produções culturais. Dos ritmos musicais ao estilo de vestir, os aspectos naturais estão profundamente enraizados em nossa identidade. Por isso, a preservação da biodiversidade é essencial para a sobrevivência dessas comunidades, que dependem diretamente do meio ambiente para manter suas vivências e sua ancestralidade.
Embora a relação entre cultura e clima, nesses espaços de debate, ainda seja tímida, iniciativas de coletivos e movimentos sociais já motivam a pauta nos territórios e periferias. Enquanto isso, a pauta cultural surge de forma incipiente nas decisões da reunião. Por exemplo, na COP 29, realizada no Azerbaijão, a cultura foi brevemente mencionada nos documentos oficiais, especificamente na decisão sobre o Programa de Trabalho de Mitigação, na seção “Cidades: edifícios e sistemas urbanos”. Os delegados destacaram a “necessidade de adaptar soluções aos contextos socioculturais e econômicos”, uma consideração ainda vaga e pouco incisiva.
Entretanto, ao invés de agregar posicionamentos mais eficazes para o combate ao colapso climático, as últimas reuniões têm mostrado um descaso e retrocesso em relação a questões importantes já conquistadas. Os resultados das duas semanas de negociações em Baku deixaram a desejar e pouco contribuíram para o avanço das ações de combate às mudanças climáticas. Ainda pior, foram permeadas por discursos contrários à diminuição do uso dos combustíveis fósseis. O presidente do país anfitrião, Ilham Aliyev, descreveu o petróleo como um “presente de Deus”. Além disso, esperava-se o financiamento de US$1,3 trilhão anuais aos países em desenvolvimento, mas, na decisão final, foram aprovados apenas US$300 bilhões, valor criticado pelos representantes do Sul Global e considerado insuficiente diante dos desafios enfrentados por esses países.
Por fim, a COP 29 apenas evidenciou a falta de compromisso dos países do Norte Global com a agenda climática, postura que tem sido recorrente nas últimas reuniões. Como progredir nas ações de enfrentamento ao colapso climático, que já é uma realidade, com recursos limitados e retrocesso em consensos já conquistados, como a necessidade de frear a emissão dos gases de efeito estufa? E como integrar o contexto cultural em um debate tão essencial para o futuro do planeta? Esses são desafios gigantescos, nos quais se espera avançar em Belém, durante a COP 30.
Para entender melhor o espaço que a cultura terá na COP 30, entrevistamos especialistas e agentes culturais que atuam no cenário cultural de Belém. Entre eles, Inês Silveira, ex-presidente da Fundação Cultural de Belém (Fumbel); Gustavo Aguiar, jornalista e diretor de comunicação da Psica Produções; e Tabita Aynoã, diretora criativa da Disguiado 091 e produtora periférica.
O protagonismo negligenciado: a estrutura da COP é realmente acessível?
Faltam poucos meses para a realização da COP 30 em Belém e a escolha da capital paraense foi muito questionada. Os desafios de sediar a reunião alimentam a desconfiança quanto à capacidade da cidade de receber o evento. Esse estigma de incapacidade persiste há séculos. Até hoje, a região Norte é vista como um grande quintal para o restante do país e do mundo, “um lugar exótico, onde só há mato e árvores”
A região ainda não tem seu devido reconhecimento enquanto polo cultural ou produtora de conhecimento, ao contrário das regiões Sul e Sudeste. Mesmo com essa descrença, Belém caminha para ser o palco das discussões sobre o futuro ambiental do planeta, e com isso, os olhares do mundo se voltam para a Amazônia. Mais do que nunca, a COP se torna uma grande oportunidade de visibilidade, não só para o Pará, mas para os estados amazônicos como um todo. No entanto, em meio a esse “protagonismo”, uma questão se impõe: de quem e para quem será essa COP?
Em tese, deveria ser um momento de grande participação e discussão social, na prática, a reunião se torna um espaço extremamente restrito, as negociações são feitas a portas fechadas por diplomatas. A reunião é dividida em dois espaços: a Blue Zone (Zona Azul) e a Green Zone (Zona Verde). A Zona Azul, gerida pela Convenção da ONU sobre a mudança do clima (UNFCCC), é onde ocorrem as principais reuniões, negociações e decisões formais. Apenas pessoas credenciadas pela UNFCCC, como delegados dos países signatários, observadores oficiais e representantes da mídia, podem participar.
Já a Zona Verde fica sob responsabilidade do país anfitrião e é um espaço mais “aberto” à sociedade civil, oferecendo oportunidades de engajamento e troca de conhecimento sobre questões climáticas. No entanto, para acessá-la, é necessário realizar inscrição e comprovar relevância de soluções relacionadas à pauta. Apesar de sua imagem “democrática”, a zona acaba sendo usada por grandes poluidores, como empresas de combustíveis fósseis, para limpar sua imagem.
Tabita Ayonã, comunicadora popular, produtora cultural e cofundadora da Diguiados 091, participou da última COP em Baku. Ela relata a experiência que teve durante a reunião, e destacou que o espaço da COP não se preocupa em escutar, de fato, quem sente na pele os impactos das mudanças climáticas. “A gente não pode romantizar o espaço da COP, não é de fácil acesso, principalmente se a gente vem da periferia. E quando tu chega lá, pra piorar, tu se sente assim… pequeno, sabe? Como se ninguém, realmente, quisesse te ouvir. E essa é a realidade da COP, principalmente se você não é um dos poderosos, se você não tem dinheiro pra influenciar lá dentro”.

Diante desse cenário, ela acredita que, mesmo em um espaço restrito, como o da reunião, é fundamental se fazer presente. Além disso, reforça que a cultura pode ser um poderoso aliado na aproximação da população da pauta climática e que a comunicação popular é uma ferramenta crucial para traduzir termos técnicos e gerar identificação com a realidade das pessoas. “A cultura e a comunicação popular, elas entram nessa conexão do povo com assuntos importantes. A cultura pode passar essas informações para a população, comunicar pra galera que não tá conseguindo entender. Para dialogar com o povo, pra que ele não deixe esses espaços serem ocupados por pessoas que só estão pensando no bolso delas”.
Tabita também ressalta a importância de fortalecer coletivos e movimentos que já estão se articulando para a COP 30, criando meios e espaços para reverberar a pauta climática nos territórios, como forma de incidir sobre as discussões e decisões formais. “Provavelmente, a COP vai ser feita lá pro centro, no Parque da Cidade, e eles não vão realizar mobilização aqui nas periferias. Mas uma alternativa que eu vejo são as Yellow Zones, porque já é algo organizado, que a gente pode contribuir. Vai acontecer a COP das Baixadas, e vários outros movimentos estão se organizando com mobilizações nos territórios, nas periferias. Temos que fortalecer esses movimentos, essas vozes que estão nos dando espaço pra dizer as nossas dores. São pessoas que já têm uma sagacidade pra transformar aquilo em documento e aplicar como incidência onde está sendo negociado”.
As Yellow Zones (Zonas Amarelas) foram criadas pelo coletivo COP das Baixadas, uma coalizão formada por várias organizações que buscam levar as demandas das periferias e inseri-las na luta pela justiça climática. Essa área foi pensada, justamente, como um contraponto às zonas Azul e Verde, com o objetivo de descentralizar a discussão e criar um espaço verdadeiramente acessível, voltado para ouvir e formalizar as reivindicações sociais nas periferias.
A comunicadora acredita numa forte manifestação social durante as duas semanas da reunião. “A gente tá com uma oportunidade muito grande nessa COP. Em Baku, você andava pelas ruas e não tinha ninguém, tu não via gente local, a gente não via a sociedade civil. A gente tá com a oportunidade, porque aqui, ninguém vai impedir a gente de se manifestar”. Vale lembrar que as últimas três edições foram realizadas em países com governos autoritários, e houve diversas denúncias sobre a repressão e impedimento de manifestações de ativistas e de organizações de direitos humanos.
“A gente não pode achar que, mesmo com essa mobilização, nossas vozes vão ser realmente ouvidas. Mas a gente vai deixar um legado de luta, assim como nossos ancestrais deixaram pra gente. Pra ajudar a próxima geração e pra nossa, porque a gente vai estar aqui também quando esse território esquentar mais, vai sentir esse calor na pele. Então, a gente tem que deixar esse legado de luta e apoio, independente de se eles não quiserem nos escutar”, finaliza.
O Pará agora é Pop, está nos holofotes do mundo, mas quem se beneficia dessa visibilidade?
A COP irá passar, mas a luta pelo território e pela cultura permanecerá. Essa visibilidade deve servir para fortalecer ainda mais essas reivindicações e poderá ajudar a integrar a questão cultural às ações oficiais. É o que pontua Gustavo Aguiar, diretor de comunicação da Psica Produções, jornalista e pesquisador. “A COP é uma vitrine, uma oportunidade. Se tu fortalece as manifestações populares culturais, tu tá preservando automaticamente a floresta, porque a própria cultura popular é gerada a partir dessa relação que a gente tem com a natureza. Mas é uma ideia que ainda não tá estabelecida. Esse é um trabalho que a gente tem que ter, deixar isso cada vez mais explícito”.

A cultura amazônida é mais do que uma vitrine exótica a ser exibida ao mundo. Ela é um material humano vivo e dinâmico, enraizado em saberes ancestrais dos povos originários e comunidades tradicionais e nas narrativas contemporâneas que emergem das periferias. Contudo, à medida que o evento se aproxima, cresce a preocupação com o risco de a cultura local ser apropriada, filtrada e ressignificada por uma perspectiva que não dialoga com sua essência.
A corrida pela representatividade na COP 30 levanta um questionamento central: a quem interessa contar a história da Amazônia? Será que as vozes que constroem a cultura no dia a dia – artistas periféricos, coletivos independentes, mestres da cultura popular, povos indígenas – terão espaço real para se expressar? Ou veremos, mais uma vez, o Sudeste ditando o que é a cultura amazônica, a embalando em um discurso agradável para o resto do mundo?
Gustavo também já atuou na comunicação de diversos festivais paraenses, inclusive em eventos no Sudeste. Ele observa uma movimentação de produtoras nacionais buscando se articular para aproveitar esse momento de evidência. “Tem muitas produtoras, do Brasil inteiro, principalmente do Sudeste, tentando participar disso. Elas chegam com toda a estrutura e só querem o carimbo de ‘tô fazendo isso com amazônida’. Agora, somos o centro das atenções, e por isso eles estão nos procurando pra fazer parcerias, nos contratar como consultores, porque eles não confiam na gente enquanto realizadores, como criadores”.
Até o momento, o que se pode observar são os anúncios de grandes eventos musicais, com atrações internacionais e nacionais, programados para os meses que antecedem a COP. Em setembro de 2024, por exemplo, foi confirmada a vinda do Global Citizen Festival para Belém, um festival de música beneficente que também está engajado na pauta da sustentabilidade. O evento ocorrerá um dia antes do início da COP, no dia 9, e espera-se que sirva como uma abertura para a reunião. Segundo os organizadores, também haverá participação de artistas locais e destaque para líderes indígenas.
Enquanto isso, a conversa com os produtores e fazedores de cultura do estado ainda está iniciando. Em janeiro, a Secretária de Cultura do Pará convidou produtores culturais para debater a agenda cultural da cidade durante a COP 30. Agora, resta saber se a escuta desses fazedores de cultura será efetivamente aplicada e se será valorizada como merece, já que, até o momento, o que se observa é uma grande mobilização para os eventos e artistas de fora do estado.
Os desafios logísticos, falta de estrutura e o apagamento histórico de produções culturais que não seguem o modelo hegemônico reforçam um cenário de exclusão. Enquanto os editais e investimentos ainda são limitados para aqueles que fazem cultura de base, grandes empresas e instituições já desenham sua presença no evento, garantindo visibilidade para um modelo cultural que reforça estereótipos e ignora a complexidade da produção artística local.
A falta de um espaço de maior visibilidade e apoio é um aspecto recorrente quando se trata de cultura, maior ainda em se falando de artistas locais e regionais. Esse é uma apontamento evidenciado pela ex-presidente da Fundação Cultural de Belém, especialista em Organização de Eventos, Ecoturismo e Turismo para o Mercosul, Inês Silveira. “A política cultural ainda não está abraçando suficientemente todos esses caminhos e essas vertentes, mas eles estão bradando. As leis de incentivo, hoje, ainda estão sendo cerceadoras em relação aos pequenos”.

No Brasil, existem diversas leis de incentivo à cultura, que vão desde a esfera federal até a municipal, com destaque a Lei Rouanet, criada no governo de Fernando Collor. Hoje, ela é a maior responsável por injetar recursos financeiros no setor, auxiliando produtores, artistas e instituições culturais a encontrar patrocinadores. Os projetos passam por várias etapas e precisam ser aprovados pelo Ministério da Cultura antes de captar recursos e são os patrocinadores, pessoas jurídicas ou físicas, que decidem em quais projetos investir.
Mesmo que pessoas com ou sem experiência possam se inscrever, na maioria das vezes, os patrocinadores optam por projetos que envolvem nomes já estabelecidos no cenário cultural, pois eles geram maior visibilidade, o que também beneficia os patrocinadores. Inês acredita que, para fortalecer e valorizar aqueles que estão iniciando, é necessário que os representantes públicos se dediquem a apoiar a nossa cultura e nossos artistas. “É difícil ainda nós acessarmos as linhas de crédito. Precisamos ser apoiados por nossos legisladores, que a gente não tenha apenas grandes festivais com grandes nomes. É aliar e agregar o que nós temos de produção com legisladores responsáveis. Nós temos os nossos mestres e mestras da cultura popular, uma grande escola cultural”.
Mas a cultura e resistência amazônida não se calam. Artistas, produtores e gestores culturais, movimentos sociais vêm se mobilizando para reivindicar um espaço legítimo dentro da COP 30. Se o evento quer ser um marco histórico para a Amazônia, ele precisa começar garantindo que a cultura e os territórios não sejam só um adereço, mas sim um pilar fundamental para o debate. Afinal, cultura também é resistência, território e identidade. “A gente tem uma oportunidade muito grande, por ser um país com muita mobilização social e ativista. As articulações que eu tenho visto e que eu sei que estão acontecendo, vão fazer uma grande ocupação. O movimento indígena, por exemplo, já deu sinais de que tem condições, de que é organizado”, pontua o comunicador.
“Vai ser muito importante a participação do movimento indígena pra incidir na opinião pública e na cobertura da imprensa internacional pra levar essas pautas sobre proteção dos povos e das culturas que são mais ameaçadas pela crise climática. A Amazônia é um exemplo disso. A gente é de uma cultura ribeirinha. Então, quais são as culturas que vão desaparecer com o aumento do nível do mar? Quais são as culturas que vão ser extintas quando a temperatura subir tanto que a gente não vai conseguir resistir, vai começar a adoecer e morrer por conta disso? Esse debate ainda não existe dentro da COP, por incrível que pareça”, finaliza o jornalista.
Ficha técnica:
Entrevistas: Beatriz Eleres, Vitória Rodrigues e Vinicius Gonçalves
Edição: Denily Fonseca
Fotos: Raul Martins
Ótimo artigo, super ajudou na elaboração do meu artigo ao Site Internacional da Amazônia.