
Por Kelvyn Gomes/Imagem: Flávio Colker
A Companhia de Dança Deborah Colker apresenta o espetáculo “Sagração” nos dias 24, 25 e 26 de outubro, no Theatro da Paz, em Belém. Na montagem, uma releitura dirigida por Deborah Colker, a música clássica de Igor Stravinsky se entrelaça a ritmos brasileiros e cosmogonias originárias, em uma criação que celebra a força ancestral e a constante reinvenção da vida.
Inspirada em “A Sagração da Primavera, obra composta em 1913 e considerada uma das mais revolucionárias do século XX, Deborah propõe uma abordagem a partir da visão dos povos originários do Brasil. “Quando decidi recontar esse clássico, pensei que teria de ser a partir da cosmovisão de povos originários do Brasil”, afirma a coreógrafa, que também é pianista.
A ideia amadureceu após uma viagem ao Xingu, durante o Kuarup, quando conheceu as aldeias Kalapalo e Kuikuro e o cineasta Takumã Kuikuro, que compartilhou com ela o mito de como o povo do chão recebeu o fogo do Urubu Rei. Essa narrativa, dançada e narrada pelo próprio Takumã, integra o conjunto de cosmogonias que compõem a dramaturgia do espetáculo.
A partir dessa base simbólica, Deborah constrói uma reflexão sobre a origem e a evolução da humanidade. “Tudo só poderia ter começado com uma mulher. Uma avó. A avó do mundo”, resume a diretora, que também revisita, com a assessoria do rabino e escritor Nilton Bonder, passagens do livro Gênesis.
As histórias de Eva e da serpente, e de Abraão, são reinterpretadas como metáforas de ruptura e autoconhecimento. “São dois mitos que elaboram sobre a consciência humana: pela autonomia de uma mulher que desperta para caminhos interditados e transgride; e de um homem que sai da sua casa e cultura em direção a si mesmo”, explica Bonder.
Além das alegorias míticas, o espetáculo dialoga com a literatura científica e as teorias da evolução. Personagens inspiradas em bactérias, herbívoros e quadrúpedes surgem em cena para representar o processo de adaptação e transformação da vida. “A versão mais recente da nossa espécie é a Homo sapiens sapiens que, assim como outros seres, precisa se adaptar constantemente”, observa Deborah.
Com direção musical de Alexandre Elias, a partitura de Stravinsky ganha novas camadas sonoras com a introdução de boi-bumbá, coco, afoxé e samba. Flautas de madeira, maracás, caxixis, tambores e paus de chuva tocados ao vivo pelos bailarinos e que ajudam a trazer à composição a energia das florestas e dos ritmos brasileiros. O cenário, criado por Gringo Cardia, incorpora 170 bambus de quatro metros de altura, símbolo de resistência e flexibilidade, que compõem o ambiente poético onde dança, mito e natureza se encontram.
“Sagração” estreou em março de 2024 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e marca os 30 anos da Companhia Deborah Colker, reconhecida internacionalmente por seu experimentalismo e rigor técnico. Em três décadas, o grupo realizou mais de duas mil apresentações em mais de cem cidades de 35 países, alcançando cerca de quatro milhões de espectadores. “Chegamos até aqui porque temos este espírito de evolução, que é um tema muito precioso para o novo espetáculo”, afirma o diretor executivo João Elias, cofundador da companhia.
