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As ruas de uma cidade são mais do que caminhos que ligam pontos. São espaços de memória, símbolos de identidade e narrativas vivas da história. Em Belém, a troca de nomes de ruas ao longo dos séculos reflete transformações políticas, interesses de poder e escolhas que moldaram a memória coletiva da cidade. Mas o que perdemos e o que ganhamos com essas mudanças?

Por Kelvyn Gomes/Imagem:

No livro Ruas de Belém, Ernesto Cruz destaca como essas alterações frequentemente dependem de interesses políticos e da vontade dos vereadores. No passado, ruas, prédios públicos e igrejas recebiam nomes de moradores ilustres ou eram batizados em homenagem a eventos históricos. Durante o Império e a República, mudanças significativas ocorreram, criando um panorama de lembranças e apagamentos.

A Rua 13 de Maio, por exemplo, no bairro da Campina, anteriormente era conhecida como Rua Formosa. Em 1840, por recomendação do Dr. Miranda, político paraense, a Câmara Municipal alterou seu nome para celebrar a retomada de Belém pelas tropas imperiais após a Revolta dos Cabanos. Ironicamente, nessa mesma rua morou possivelmente Eduardo Angelim, líder cabano e terceiro presidente rebelde. Esse caso ilustra como as mudanças podem recontar, ou ocultar,  narrativas históricas. 

Biblioteca pública, atualmente Arquivo Público do Estado, atual 13 de maio, J.L Righini

Outras alterações também são marcantes: a Avenida Presidente Vargas já foi Rua dos Mirandas e 15 de Agosto. A Almirante Barroso, uma das principais vias de Belém e com um dos piores tráfegos da cidade, antes era Estrada de Bragança por conta do trajeto que ligava o centro à cidade do nordeste paraense e depois foi transformada em Tito Franco, em homenagem ao advogado e escritor paraense. Essas renomeações, que geralmente não passam pelo crivo da população, levantam questões importantes sobre memória e identidade. A ausência de diálogo reforça a desconexão entre a memória oficial, construída por grupos de poder, e a memória afetiva, vivida pelos moradores. Afinal, ruas não são apenas vias urbanas por onde circulamos, elas são palcos de histórias pessoais e coletivas. 

Repensar o nome de uma rua é também repensar o que valorizamos enquanto sociedade. Que fatos e personagens merecem ser lembrados? As escolhas devem ser baseadas na justiça histórica ou na afetividade local? Um exemplo é a Avenida Municipalidade, que desde sua inauguração preserva um nome que simboliza o vínculo de Belém com sua própria essência.

A história das ruas de Belém é rica e complexa, mas sua constante reescrita precisa ser democrática. Ao envolver a população no processo, podemos equilibrar modernização, memória e identidade. Afinal, as ruas contam histórias para aqueles que as percorrem – mas quem decide quais histórias devem ser contadas?

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