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Por Regina Lima/ Imagem: Divulgação

A Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa) aprovou, nesta terça-feira, 15 de setembro, o projeto de lei que reconhece a obra de Zélia Amador de Deus como patrimônio cultural e imaterial do Pará. A proposta foi apresentada pela deputada estadual Lívia Duarte (PSOL) e segue agora para sanção da governadora.

Falecida no último dia 8, Zélia também foi homenageada durante a sessão com um minuto de silêncio, solicitado por Lívia Duarte. A parlamentar protocolou ainda um requerimento de votos de pesar, que deverá ser apreciado pela Casa.

Emocionada, Lívia relembrou na tribuna do plenário Newton Miranda a última conversa que teve com Zélia, considerada uma das maiores referências do enfrentamento ao racismo no Pará e no Brasil.

“Me emociona muito falar dela. As últimas palavras dela para mim foram: ‘Lívia, não baixa a guarda’”, contou a deputada.

Lívia, que mantém atuação em defesa dos direitos da população negra e no combate ao racismo, tinha uma relação pessoal com a intelectual. Primeira mulher negra eleita deputada estadual no Pará, a parlamentar já recebeu quatro ameaças anônimas de morte, enviadas por meio de mensagens com conteúdo racista e misógino.

Ao justificar a homenagem, Lívia destacou a importância de Zélia para diferentes gerações de pessoas negras.

“Um minuto de silêncio pelo falecimento, pela travessia, pelo encontro com a ancestralidade de Zélia Amador de Deus, grande intelectual paraense, uma das maiores do Brasil”, declarou.

Segundo a deputada, Zélia abriu caminhos e enfrentou estruturas que historicamente limitaram as oportunidades da população negra.

“O falecimento de Zélia tocou a todos nós, negros e negras, pois ela teve uma mensagem fundamental para todos nós. Foi uma abridora de caminhos, uma ‘fissuradora’ de sistemas, uma pessoa de trajetória brilhante. Para os jovens negros e negras deste estado, ela representou um verdadeiro portal para um futuro diferente”, afirmou.

Uma vida dedicada à luta antirracista

Doutora em Ciências Sociais, professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA) e uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), Zélia Amador de Deus construiu uma trajetória dedicada aos direitos humanos, à democracia e à luta contra o racismo.

Autora e coautora de diversos livros, ela pesquisou e escreveu sobre igualdade racial, educação, africanidades, violência institucional, discriminação e organização política do movimento negro brasileiro. Sua produção também contribuiu para evidenciar as experiências e reivindicações específicas das mulheres negras dentro do movimento feminista.

Entre suas principais obras está Caminhos trilhados na luta antirracista, que aborda momentos da resistência à ditadura, o processo de redemocratização do país e a organização do movimento negro no Brasil. O livro também analisa os desafios enfrentados por pessoas que fizeram da promoção da igualdade racial e do combate ao racismo uma razão de vida.

Zélia teve ainda participação decisiva na construção de políticas de inclusão na UFPA. Por meio do Cedenpa, fundado na década de 1980, colaborou com iniciativas voltadas à titulação de terras de comunidades quilombolas, à defesa de direitos territoriais e à implantação de projetos de educação e inclusão étnico-racial.

A atuação da entidade também alcançou programas de alfabetização de jovens e adultos em comunidades quilombolas e áreas periféricas, além da articulação da Marcha das Mulheres Negras e de outras mobilizações sociais.

Com a aprovação do projeto, a Alepa reconhece oficialmente a dimensão histórica, política e cultural da produção de Zélia Amador de Deus. Uma obra que permanece como memória, ferramenta de luta e caminho aberto para as novas gerações.

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