
Por Regina Lima/ Imagem: Divulgação
Realizada no bairro do Jurunas, a terceira edição do projeto reúne formação, agroecologia, cultura e reflexões sobre racismo ambiental. A culminância acontece em 5 de setembro, Dia da Amazônia.
Quando a Amazônia aparece sob o olhar da grande mídia, muitas vezes é retratada como uma imensa floresta despovoada. A região, porém, também é formada por cidades populosas e extensos bairros periféricos, onde comunidades constroem conhecimentos, memórias e formas próprias de resistência. É nesse contexto que acontece a terceira edição do Sankofa Amazônica, no Espaço Ecoamazônias, no Jurunas, um dos bairros mais populosos de Belém.
A capital paraense possui cerca de 1,39 milhão de habitantes, segundo o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Somente no Jurunas vivem 53.985 pessoas. Em meio a esse território, o Ecoamazônias desenvolve atividades que colocam o cuidado e o bem viver no centro das ações políticas e comunitárias.
Realizado pelo Instituto Negritar, o Sankofa Amazônica é um ciclo formativo dedicado aos saberes ancestrais e às práticas de cuidado presentes nos territórios periféricos e nas comunidades tradicionais de Belém. A programação começou em 15 de agosto e será encerrada em 5 de setembro, Dia da Amazônia.
O projeto articula cultura, permacultura, agroecologia e reflexões sobre racismo ambiental. A proposta parte do entendimento de que os territórios não são apenas espaços de carência, como muitas vezes são apresentados, mas lugares que produzem conhecimentos, preservam memórias e constroem alternativas para o futuro.
A palavra “Sankofa” tem origem em um princípio africano que convida a olhar para o passado, recuperar conhecimentos e experiências e, a partir deles, construir novos caminhos. Esse movimento inspira também as homenagens desta edição, dedicadas a Nilma Bentes, Maria Malcher, Zélia Amador de Deus e Silair.
“Essas mulheres vieram antes e estão construindo esses caminhos para a gente poder estar aqui hoje. Então, nada mais justo do que homenageá-las”, explica Andrezza Mota, coordenadora do Sankofa Amazônica.
A programação priorizou a participação de moradores do Jurunas e de outros territórios periféricos, especialmente mães e pessoas trans. Para garantir o acesso de pessoas em situação de vulnerabilidade, o projeto disponibilizou ajuda de custo aos participantes das oficinas.
Produção de alimentos e saberes ancestrais
O ciclo começou com uma imersão no Quilombo do Abacatal, no Sítio Ossayn. A atividade foi conduzida por Makínì Maiô do Ocã, nome tradicional de Vívia da Conceição Cardoso, produtora rural do território quilombola. A experiência aproximou os participantes de conhecimentos relacionados ao cultivo de alimentos, às plantas medicinais e às práticas ancestrais de cuidado.
No sítio, os participantes conheceram uma horta que ultrapassa a produção convencional de hortaliças. O espaço reúne árvores frutíferas, ervas medicinais, plantas ligadas às religiões de matriz africana e diferentes alimentos cultivados conjuntamente.
“Tudo que a gente produz ali, a gente come, faz chá, faz defumação, faz banho. A gente consegue receber as pessoas mostrando o que cada planta proporciona para quem mora ali”, conta Makínì.
Para a produtora rural, cultivar o próprio alimento também significa recuperar conhecimentos transmitidos entre gerações. “Funcionava com as minhas antepassadas e funciona ainda agora. Basta a gente querer e se abrir para isso”, afirma.
Makínì destaca que essas práticas podem ser adaptadas à realidade das periferias urbanas, inclusive em casas pequenas e sem quintais. Caixotes, vasos e estruturas verticais podem se transformar em espaços de cultivo. “Se produz aqui, eu também posso produzir em casa. Eu posso produzir no caixote. A gente está dando alternativa para as pessoas”, acrescenta.
A discussão sobre alimentação saudável, autonomia e cuidado atravessou as demais atividades do ciclo. Entre elas estiveram as oficinas “Alimentos que Curam”, dedicada às relações entre plantas, alimentação e conhecimentos ancestrais, e “Ressignificando”, voltada ao reaproveitamento de materiais e resíduos sólidos e orgânicos.
Outra atividade prevista é “Sons, Timbres e Tons”, que propõe a construção de instrumentos e a experimentação musical a partir de materiais recicláveis e elementos encontrados na natureza.
Para Elizabeth Rayol, professora da rede pública e militante do Grupo de Mulheres Brasileiras (GMB), o conhecimento compartilhado durante a formação deve alcançar outras mulheres. O GMB desenvolve o projeto Quintal Vivo e uma feira agroecológica de economia solidária e feminista, iniciativas que estimulam a produção nos quintais e a geração de renda.
Um espaço verde no coração do Jurunas
Criado há três anos, o Espaço Ecoamazônias foi idealizado por Joyce Cursino, moradora do Jurunas. A proposta nasceu de sua experiência de vida na periferia e do desejo de construir um espaço verde, aberto e compartilhado com a comunidade.
“Eu cresci numa casa de um cômodo. Na minha adolescência e juventude, a gente nem tinha janela em casa. Quando eu vim para cá para fazer esse trabalho de recuperação, pensei muito nessa proposta de ser um espaço bem aberto para a comunidade, de ter um espaço verde dentro da periferia”, relata Joyce.
No Ecoamazônias, hortas verticais, caixotes, pequenos quintais e outras tecnologias demonstram que a produção de alimentos não depende necessariamente de grandes terrenos. As soluções podem ser ajustadas às condições de quem vive em áreas urbanas densamente ocupadas.
A troca entre gerações é um dos princípios que orientam o espaço. “É muito essa questão da ancestralidade, da gente aprender com os mais velhos, da gente se escutar enquanto juventude e incluir as crianças”, afirma Joyce.
A inclusão das crianças também passa pela criação de condições para que as mães participem das atividades. Durante a programação, o Sankofa manteve um espaço infantil com cuidadores, permitindo que as mulheres acompanhassem as oficinas com tranquilidade.
Daiane Tupinambá, conhecida artisticamente como Mini, saiu de Mosqueiro para participar da formação acompanhada do filho. Para ela, o acolhimento das crianças faz diferença na ocupação desses espaços.
“Poder ter essa formação, aprender a plantar nosso próprio alimento e ter essas ferramentas e conhecimentos está sendo de suma importância. E, principalmente, ter um espaço onde possam acolher nossas crias”, afirma.
Celebração no Dia da Amazônia
A culminância da terceira edição do Sankofa Amazônica será realizada em 5 de setembro, Dia da Amazônia. A programação começa com a última vivência do ciclo, “Sons, Timbres e Tons”, conduzida pelo Mestre Dimmi. A atividade explorará a musicalidade produzida com elementos da natureza e materiais reutilizados.
Em seguida, o Ecoamazônias será aberto ao público com feira criativa, Tenda dos Cuidados, palco aberto, apresentações culturais e uma grande roda de carimbó e batuques. A programação inclui ainda a exibição de cinco curtas-metragens produzidos pelo projeto Telas em Movimento nos territórios de Curuçambá, Marapanim, Fortalezinha e Maracanã.
O encerramento também será marcado por homenagens. Alguns ambientes do Ecoamazônias receberão os nomes das mulheres reconhecidas nesta edição. O cantinho da leitura deverá ser batizado com o nome de Zélia Amador de Deus, enquanto a horta comunitária será dedicada a Silair, mãe de Joyce Cursino e uma das responsáveis pelo cuidado cotidiano das plantas e do espaço.
Uma homenagem especial será prestada ao mestre Lourival Igarapé, falecido em agosto de 2025. Ligado à defesa da natureza e dos territórios, ele visitou o local antes mesmo de o Ecoamazônias ganhar sua configuração atual e plantou uma cuieira que permanece no espaço.
“Ele esteve aqui no começo de tudo, quando tudo ainda era um sonho. Veio aqui e plantou uma cuieira. Então eu sempre falo que tem uma semente dele literalmente plantada aqui”, conta Joyce. Em sua memória, uma das trilhas construídas no espaço receberá o nome de Trilha Lourival Igarapé.
A programação conta ainda com a participação da Associação de Trabalhadores e Trabalhadoras com Deficiência do Estado do Pará (Astedem), que atua nas ações de acessibilidade, e da Casa Cura, responsável por compartilhar experiências de cuidado e recuperação do solo e da água. Com apoio do Instituto Procomum, a Tenda dos Cuidados oferecerá atendimento de massoterapia.
A terceira edição do Sankofa Amazônica é uma realização do Instituto Negritar, com recursos do Colmeia, iniciativa do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), e do Instituto Ibirapitanga.
Serviço
Culminância da terceira edição do Sankofa Amazônica
Data: 5 de setembro, Dia da Amazônia
Local: Espaço Ecoamazônias, bairro do Jurunas, em Belém
Programação:
Vivência “Sons, Timbres e Tons”, com Mestre Dimmi;
Feira criativa;
Tenda dos Cuidados, com atendimento de massoterapia;
Palco aberto e programação cultural;
Homenagens a mulheres referências de cuidado, resistência e ancestralidade;
Homenagem ao mestre Lourival Igarapé;
Exibição de cinco curtas-metragens do projeto Telas em Movimento;
Atividades com a participação da Astedem e da Casa Cura;
Roda aberta de carimbó e batuques.
Realização: Instituto Negritar
Recursos: Colmeia – CEERT e Instituto Ibirapitanga.
