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Portal Jambu

Por Suane Barreirinhas

O Pará tem um problema curioso: quando o mundo olha para nós, parece descobrir uma potência que nós sempre soubemos que existia.
O problema começa quando o mundo vai embora.

Foi assim durante a Belle Époque. Foi assim com Serra Pelada. E foi assim, mais recentemente, com a COP3.

Quando Belém foi anunciada como sede da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a cidade voltou ao centro das atenções. Durante meses, fomos observados, fotografados, discutidos e, em alguma medida, redescobertos. A Amazônia deixou de ser apenas uma palavra distante nos discursos internacionais e passou a ter endereço: Belém do Pará.

As ruas mudaram. Obras surgiram. Hotéis foram movimentados. Novos espaços foram anunciados. A cidade se preparou para receber o mundo.

E recebeu.

Mas o mundo vai embora.

E nós ficamos.

Não digo isso como quem acredita que nada ficou. Ficaram obras, equipamentos, investimentos, experiências e uma série de transformações que ainda precisam ser avaliadas com tempo. A COP30 também deixou aprendizados e colocou Belém em uma posição que, durante muito tempo, parecia distante.

A questão é outra: o que fazemos quando os grandes eventos terminam?

Porque essa não é uma pergunta nova para nós.

Belém ainda carrega nas suas ruas as marcas de uma época em que o dinheiro da borracha fez a cidade sonhar com a Europa. A Belle Époque deixou teatros, mercados, praças e casarões que até hoje fazem parte da nossa paisagem.

Mas também deixou uma contradição.

Algumas das maiores marcas daquela riqueza estão hoje abandonadas, deterioradas, transformadas em grandes carcaças de uma cidade que já foi muito mais rica do que é hoje.

É como se Belém tivesse aprendido a guardar os restos dos seus momentos de glória.

Depois veio o ouro.

Serra Pelada virou uma das imagens mais conhecidas do Brasil. Milhares de homens descendo um enorme buraco em busca da promessa de riqueza. O Pará estava novamente no centro das atenções.

A riqueza passou.

O ouro acabou.

O que ficou foi um território marcado pela exploração e um enorme buraco que parece resumir uma parte da nossa história: chega a promessa, chega a riqueza, chega o mundo, todo mundo vai embora e ficam as marcas.

Agora, em 2026, estamos novamente vivendo uma ressaca.

Pouco tempo depois de Belém receber um dos maiores eventos internacionais do planeta, a cidade parece ter voltado à rotina de sempre. Não porque não existam eventos ou porque absolutamente nada esteja acontecendo, mas porque aquela sensação de urgência que tomou conta da cidade durante a COP já não está mais aqui.

Os olhos do mundo mudaram de direção.

E talvez esse seja o momento em que precisamos olhar para nós mesmos.

Porque o problema não é o mundo deixar de olhar para o Pará. O problema é nós precisarmos tanto que ele olhe para cá para lembrarmos da nossa própria importância.

Temos um estado culturalmente potente, uma produção artística enorme, uma história que não cabe em nenhuma conferência, uma gastronomia reconhecida, uma música que atravessa fronteiras, comunidades que produzem conhecimento e uma população que insiste em criar mesmo quando as condições são adversas.

Ainda assim, continuamos vivendo de ciclos.

Aparecemos quando existe uma grande obra.

Aparecemos quando existe um grande evento.

Aparecemos quando existe uma grande descoberta.

Aparecemos quando alguém precisa falar da Amazônia.

E depois desaparecemos novamente.

Talvez seja por isso que algumas obras de 2026 me causem uma sensação difícil de explicar.

Passei recentemente por uma dessas grandes avenidas construídas para melhorar a mobilidade e aproximar municípios. Uma obra enorme, larga, imponente.

Era horário de pico.

Olhei para a avenida e contei, talvez, uns trinta carros.

A sensação que tive foi estranha. Eu estava diante de uma obra gigantesca e me senti vazia.

Não estou fazendo aqui uma análise técnica da obra. Não estou dizendo que ela funciona ou não funciona. Estou falando de uma sensação que talvez seja maior do que aquela avenida.

Estamos construindo grandes estruturas, mas ainda precisamos responder que cidade estamos construindo.

Porque uma cidade não é apenas uma avenida.

Uma cidade é gente.

É cultura.

É trabalho.

É encontro.

É memória.

É esporte.

É possibilidade.

É futuro.

E talvez seja justamente no esporte que a nossa ausência fique mais evidente.

Em 2014, quando o Brasil recebeu a Copa do Mundo masculina, Belém ficou fora da lista de cidades-sede.

Agora, em 2027, quando o Brasil receberá a Copa do Mundo Feminina, Belém também ficou de fora.

A FIFA apresentou critérios técnicos para a escolha das cidades, envolvendo infraestrutura, logística, centros de treinamento, hospedagem e outros requisitos.

Mas fica uma pergunta que não precisa de resposta fácil: como uma região que respira futebol continua tão distante dos grandes eventos esportivos realizados no país?

E não estou falando apenas de Remo e Paysandu.

Estou falando do interior.

Das torcidas apaixonadas.

Dos campos de várzea.

Das mulheres que jogam futebol.

Dos clubes que sobrevivem apesar das dificuldades.

De uma cultura esportiva que existe muito antes de qualquer comissão técnica ou entidade internacional decidir quem merece receber um evento.

É difícil não olhar para isso e pensar que, mais uma vez, a Região Norte ficou do lado de fora.

E talvez seja aí que a cultura encontre a política.

Porque o Pará não sofre de falta de potência.

Sofre de dificuldade em transformar potência em permanência.

Temos cultura suficiente para ocupar o mundo, mas ainda lutamos para garantir políticas culturais permanentes.

Temos história suficiente para movimentar o turismo, mas ainda convivemos com patrimônio abandonado.

Temos futebol suficiente para movimentar estádios, mas continuamos fora dos grandes circuitos esportivos.

Temos uma cidade que acabou de receber o mundo, mas ainda precisamos discutir qual cidade queremos entregar para quem vive aqui todos os dias.

A COP30 não deveria ser lembrada apenas como o ano em que Belém recebeu o mundo.

Deveria ser lembrada como o momento em que o Pará decidiu o que faria depois que o mundo fosse embora.

Porque os estrangeiros voltaram para suas casas.

Os jornalistas partiram.

As delegações foram embora.

Os holofotes mudaram de direção.

Mas nós continuamos aqui.

E talvez essa seja a nossa maior responsabilidade.

Parar de esperar o próximo ciclo para sermos importantes.

Parar de esperar a próxima corrida do ouro.

Parar de esperar a próxima grande conferência.

Parar de esperar que alguém de fora descubra aquilo que nós já sabemos há muito tempo.

O Pará é potente.

Belém é potente.

Nossa cultura é potente.

Nossa gente é potente.

Mas potência sem projeto vira memória.

E talvez o que mais falte ao Pará não seja uma nova oportunidade de estar no centro das atenções.

Talvez seja aprender a permanecer no centro depois que as atenções acabam.

Porque o mundo sempre vai embora.

A pergunta é: o que nós vamos fazer enquanto ele estiver olhando para outro lugar?

Paraense em movimento

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Três paraenses, três caminhos, três formas de ocupar espaços.

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