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Imagem: Ayumi Shimamoto

Do Guamá ao mundo, Epílogo: Jabuti-Tinga faz da escrita um corpo em luta, transformando memória, desejo e periferia em linguagem viva que recusa o silêncio.

Belém ainda carrega os ecos da COP 30. Depois de ter voltado ao centro das discussões globais sobre clima, território e futuro, a cidade segue fervilhando de vozes que insistem em existir. É nesse pós-conferência, quando as luzes do evento internacional se apagam e a vida cotidiana retoma seu pulso, que um livro nascido no Guamá lembra que as cidades também são feitas de carne, memória e palavra. É desse chão denso e contraditório que surge Epílogo: Jabuti-Tinga, estreia literária de Xavier Bartira, publicada pela Mercador Editorial, de Portugal, e pela Editora Caravana, no Brasil.

Bartira, artista e estudante de Língua Portuguesa na Universidade do Estado do Pará, escreve a partir de dentro. Pessoa queer, criada no bairro mais populoso de Belém, transforma o cotidiano do Guamá em matéria de invenção. A narrativa se move como correnteza: experimental, sem vírgulas, guiada por fluxo de pensamento. O texto respira em outro ritmo, às vezes sufoca, às vezes liberta. O leitor é convidado a caminhar sem corrimão, a sentir o atrito entre linguagem e mundo.

O livro tensiona o que se costuma chamar de literatura. Pergunta, cutuca, reabre feridas. O corpo aparece como território político, o desejo como resistência, o abjeto como força criativa. Entre o erótico e o escatológico, a escrita se recusa a higienizar a experiência. Há família, há luto, há racismo, há racismo ambiental, há fé e desencanto. Tudo atravessado por uma espiritualidade inquieta e por um senso de urgência que vem da periferia e do abandono histórico.

O narrador, morador do Guamá, caminha entre lembrança e delírio. A mãe está ali, mas em falta. O pai permanece como fantasma. O bairro fala, mas nem sempre escuta. A linguagem se torna o lugar onde essas presenças e ausências se enroscam. Bartira costura afetos e dores em uma prosa que parece pulsar no limite do silêncio. O resultado é um livro que não pede licença. Ele se impõe como gesto de existência.

Há, na obra, uma tentativa de inventar idioma próprio. Uma escrita que mistura o íntimo e o coletivo, o humano e o ecológico, o sagrado e o grotesco. O Guamá deixa de ser cenário e vira voz. E dessa voz emerge uma literatura que nasce local e se projeta para além das margens. Um livro que dialoga com o momento recente de Belém, mas também com qualquer território onde o corpo seja campo de disputa.

Epílogo: Jabuti-Tinga chega como estreia inquieta e necessária. Um livro que não oferece conforto fácil. Em vez disso, convida o leitor a encarar o que costuma ser escondido. E talvez seja justamente aí que mora sua força.

Onde comprar
O livro está em pré-venda no site da Editora Caravana.
Valor: R$ 59,90 (preço médio de pré-lançamento no site da editora, sujeito a variação).
Compra on-line: https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/epilogo-jabuti-tinga/

Para quem se interessa por novas vozes da literatura amazônica e por escritas que desafiam a forma, a leitura vale a travessia. É um desses livros que saem do bairro para o mundo com a coragem de quem decidiu não ficar calado.

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