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Por João Polaro/Imagem: divulgação

Para quem já visitou Portugal ou assistiu aos filmes da saga Harry Potter, talvez tenha
tido contato com a belíssima Livraria Lello, no Porto. Poucos sabem, no entanto, que
Belém do Pará já possuiu uma livraria tão emblemática quanto, inclusive de estilo
arquitetônico semelhante. À época, localizava-se na icônica Avenida João Alfredo.
O espaço conhecido como Livraria Universal Tavares & Cardoso teve sua gênese no
ano de 1868, ainda durante o reinado de D. Pedro II. Contudo, foi durante a Belle
Époque amazônica que o edifício passou por uma ampla reforma, incorporando
elementos neogóticos e de art nouveau, assim como ocorreu com a Livraria Lello, em
Portugal.
Por volta da década de 1950, o local deixou de funcionar como livraria e passou para as
mãos do Banco de Lavoura de Minas Gerais. Atualmente, o edifício abriga uma loja de
confecções e utilidades importadas. Talvez o leitor já tenha ouvido a denominação
Tavares & Cardoso, uma vez que o antigo chalé da família, localizado em Icoaraci,
abriga hoje a importante Biblioteca Municipal Avertano Rocha.


Atualmente, o que se observa da antiga livraria é apenas sua fachada, imersa na intensa
poluição visual da Avenida João Alfredo, via que, infelizmente, não recebeu projetos
significativos de qualificação urbana durante os preparativos para a COP 30 — uma
oportunidade perdida. Internamente, não é de conhecimento público o estado de
conservação do imóvel, especialmente ao longo de seus três pavimentos. No entanto,
fotografias de época revelam estruturas em ferro e madeira, com acabamentos e
ornamentos de grande qualidade, elementos raros na Amazônia e, quiçá, no Brasil.
Diante dos 410 anos de Belém, o edifício poderia ser reintegrado à cidade por meio de
uma nova função. Aqui deixo uma sugestão: sua transformação em Arquivo Público
Municipal. Belém carece de um arquivo estruturado, apesar de possuir extensa
documentação histórica e administrativa que serviria tanto à gestão pública quanto à
pesquisa acadêmica. Investir em informação é investir na qualidade da administração
pública.

Não se trata, portanto, de defender o restauro pelo restauro. É fundamental compreender
o edifício a partir de sua função no presente, articulando preservação, uso social e
política pública. Para isso, espera-se, primeiramente, uma reestruturação das instituições
municipais de cultura e salvaguarda, que atualmente não se encontram em condições
adequadas de trabalho. Além disso, é imprescindível a participação de arquivistas e
profissionais de conservação e restauro nas discussões e na eventual gestão do espaço,
caso uma proposta de restauração venha, de fato, a sair do papel.

Respostas de 2

  1. Excelente artigo.
    O Estado do Pará tem muita história a ser contada, muitas delas trancadas em baús fechados a espera de ser abertos e finalmente ganhar sua devida importância.
    Uma região rica em muitas culturas mais escondidas, esquecidas e envergonhadas.
    Parabéns João Polaro.

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