
Por Kelvyn Gomes/Imagem: Divulgação
Antes de se tornar livro, “Farelo”, obra recentemente lançada por Fabrício Pinheiro, foi caminho feito de deslocamentos, trabalhos instáveis, observação constante das relações humanas e uma escrita que insistiu em existir. A obra marca a estreia de Fabrício Pinheiro em livro solo, mas nasce de uma trajetória longa, construída entre o Norte do país, o cinema nacional e a literatura publicada aos poucos, em revistas e jornais. O Portal Jambu conversou com o autor para conhecer um pouco mais sobre o nome por traz de Farelo.
Natural de Óbidos, região Oeste do Pará, e criado em Santarém, Fabrício começou a escrever ainda jovem, muito antes de imaginar um livro. “Eu sempre tentei escrever algo maior e mais denso, mas sempre me frustrava com o que escrevia. Achava não ter repertório suficiente para se escrever um livro”, relembra. Por isso, durante anos, permaneceu nos contos e crônicas, formatos que lhe permitiam experimentar a linguagem sem a pressão de uma obra longa.
A mudança para Belém, onde cursou Comunicação Social pela Universidade Federal do Pará (UFPA), foi decisiva para ampliar esse repertório. Mais tarde, a formação em Gestão Cultural pelo Instituto Singularidades, somou-se à atuação profissional no cinema. Há mais de 15 anos, Fabrício trabalha como produtor de set no audiovisual brasileiro, experiência que o colocou em contato direto com as dinâmicas precárias do trabalho cultural, embora ele faça questão de relativizar essa leitura sobre o livro.
Desde 2017, vivendo em São Paulo, passou a publicar textos em veículos literários como Jornal Relevo, Revista Sucuru, Mirada e Plástico Bolha. “Minha estreia, assim a considero, foi com essas publicações”, afirma. Farelo, no entanto, representa “uma estreia maior, de fato”, tanto pelo fôlego narrativo quanto pela densidade temática.
O impulso definitivo para a escrita do livro veio em um momento de instabilidade pessoal. Morando de favor na casa de uma amiga, após reler Trópico de Câncer, de Henry Miller, Fabrício sentiu o texto emergir de forma quase imediata. “Havia acabado de ler as primeiras páginas e a avalanche veio. Corri para pegar um caderno de notas que levava na mochila e comecei a escrever”, conta.

Narrado por um cineasta desempregado, sem casa fixa e em constante trânsito entre apartamentos de amigos, Farelo se passa em um contexto de crise sanitária e isolamento social. Ainda assim, o autor destaca que esse não é o eixo central da obra. “A motivação do livro não é a precariedade e sobrevivência com o audiovisual. A motivação é a precariedade das relações humanas, principalmente na atualidade, a sua superficialidade e brevidade”, explica.
Segundo ele, o trabalho no cinema e a pandemia aparecem como recortes narrativos, usados para tensionar as descobertas do personagem. “São ferramentas, contextos, que potencializam as relações do personagem, suas constatações e deslocamentos”, afirma. Entre esses deslocamentos estão os geográficos, os sociais e os internos, marcados pela percepção diária da derrota em um mundo obcecado pela vitória.
A experiência da crise sanitária, para Fabrício, funcionou como um catalisador dessa percepção. “A crise extrai da humanidade a sua faceta mais crua. É quando o podre, o invisível, aparece o real”, reflete. Ele ressalta que não se trata de julgar essas facetas como boas ou más, mas de encará-las como parte da condição humana. “Trata-se apenas da constatação da imperfeição”, resume.
Essa recusa em romantizar a superação também atravessa o título da obra. Farelo remete à condição de escassez vivida pelo personagem, que sobrevive de restos materiais e afetivos. “É como se ele estivesse ao pé da mesa de um enorme banquete, esperando que lhe caia alguma sobra”, explica o autor. Ao mesmo tempo, o título dialoga com a gíria paraense “levou o farelo”, trazendo uma camada de ironia que atravessa toda a narrativa.
Ao falar sobre o diálogo que espera estabelecer com o público, Fabrício evita qualquer tom motivacional. “Eu não quero pregar a desesperança, muito menos a desilusão, mas é importante que sejamos honestos. A vida é dura demais”, afirma. Para ele, o livro é um convite à escuta de si mesmo, mesmo que isso dure pouco. “É importante saber se localizar pelo menos uma vez”, diz.
“Quem diz e faz o livro, muitas vezes, é mais o leitor do que quem escreveu”, afirma o autor, ao defender o poder da interpretação e da imaginação. E deixa o convite final, coerente com o espírito da obra. “Leia Farelo. Venha fazer parte desse banquete de maltrapilhos, que apesar das circunstâncias, são gente boa pra caralho”.
O livro foi publicado pela Editora Urutau, e está sendo comercializado no site da própria editora.

Olá. Sou o Fabrício Pinheiro e gostaria de fazer uma correção na matéria. Farelo não se encontra mais em pré -venda. Ele já está disponível e pode ser comprado no site da Editora Urutau https://editoraurutau.com/titulo/farelo
Essa campanha do Benfeitoria já não existe mais. O livro já existe e pode ser comprado pelo site da Editora. Pessoas já estão lendo e levando pra casa FARELO. Podem corrigir isso, por favor?