
Por Kelvyn Gomes/Imagem: Kelvyn Gomes
A jovem campeã climática da COP30, Marcele Oliveira, esteve em Belém em agosto de 2025 para visitar o Curro Velho que, a partir da próxima semana, passará a ser a “Cidade da Juventude”, espaço destinado a abrigar jovens ativistas e atividades paralelas à própria COP. A visita de Marcele ao Curro Velho acontecia também às vésperas da realização da “COP das Baixadas”, movimento que busca aproximar o debate e as ações de justiça climática e social das comunidades periféricas. Na ocasião, o Portal Jambu conversou com a ativista sobre sua trajetória até a representação da juventude na COP e o papel da cultura na defesa do meio ambiente.
Cria de Realengo, Marcele Oliveira conta que sempre foi dada aos movimentos culturais. Na escola, esteve à frente da organização de eventos, encontros e feiras; participou ativamente do processo de ocupação das escolas públicas em 2016, onde geralmente estava responsável pela dinâmica organizacional do movimento na sua escola. Foi então que começou a ser apontada pelos colegas como alguém que “deveria fazer produção cultural”. A ausência do curso na cidade natal levou Marcele à cidade vizinha; foi no banco de um ônibus, no caminho para a universidade, que ela percebeu que algo do outro lado da ponte estava errado.
“Eu fui para Niterói e, nessa travessia, reparei que quanto mais eu chegava às zonas mais ricas, nas áreas nobres da cidade, mais existia qualidade de vida, mais tinha árvores, parques públicos, espaços de lazer e em Realengo não tinha tanto. Apesar de ser um bairro com muitas praças, eram praças que estavam deterioradas. E aí eu entendi que tinha alguma coisa errada”, lembra a ativista socioambiental.
O curso de Produção Cultural ajudou nesse despertar. O “retorno” de Marcele para seu território trouxe junto a reflexão sobre o significado e o pertencimento ao lugar de origem. Como em outras comunidades periféricas Brasil afora, o legado deixado por terceiros sobre a imagem do bairro era sempre negativo: o lugar da violência, das ausências, do descaso. “Ia pesquisar Realengo na rede social, no Google, e falava somente sobre coisas ruins. Você pesquisava a palavra Realengo e aparecia uma tragédia que aconteceu no território em 2011, e isso me impactou muito.”
Quando Marcele começou a me contar essa parte de sua história, um arrepio correu pelo meu corpo e eu travei. O que ela descrevia era exatamente o que nós, periféricos aqui da Vila da Barca, de onde escrevo, e provavelmente de tantas outras favelas, periferias, baixadas experimentamos. No caso da Vila da Barca, em específico, os jornais dos anos 1980 e 1990 cravaram a comunidade como o lugar onde “só tem bandido”. O lugar que não precisa de árvores, onde a população é mal-educada e polui o ambiente, o lugar de onde, ao redor do centro, elas precisam ser sempre removidas. Meu cérebro só destravou quando ela começou a me contar sobre a mobilização que começou a fazer com outros jovens do bairro.
“Então, junto com alguns colegas, a gente combinou que queria mudar aquilo. A gente combinou que precisava fazer muitas notícias sobre Realengo aparecerem nas redes. E, dentro dessa dinâmica, a gente olhou para uma luta que já era antiga dentro do território, que era a luta pelo Parque Realengo Verde, e começou a aprender um pouco sobre como a cultura, o nosso pertencimento em relação ao nosso território, também se relacionava com as lutas que a gente conhecia ou desconhecia”, lembra Marcele.
A internet como ferramenta de mobilização e transformação social
O engajamento da nova turma que entrou para se somar aos mais velhos na luta pelo parque contou com uma ferramenta importante para os movimentos sociais do século XXI, sobretudo a partir da década de 2010: a internet. Os jovens fizeram o movimento viralizar nas mídias sociais, agendando o campo jornalístico da região. “A gente mobilizou com comunicação, fazendo audiências públicas, denúncias, ações e tudo isso muito culturalmente falando. A gente fez festival, fez sarau, fez mutirão de limpeza em uma calçada, começou a limpar essa calçada falando do parque e hoje o parque existe”, explicou a carioca.
A meta ambiciosa pela luta do Parque Realengo Verde foi além. A comunidade não conquistou apenas a área, mas uma política pública de parques na região. Para ela, a história do Parque Realengo Verde é uma história não apenas sua, mas de vários territórios periféricos. O encontro entre “cultura e clima” é capaz de transformar espaços negligenciados, conquistando-os e conectando-os aos seus biomas, direitos e ao verde.
A forma como nos relacionamos com o ambiente também é cultural
“Não é só sobre cultura ou só sobre clima”, afirma a ativista. Marcele, como poucos, entende a cultura em seu âmbito mais profundo, complexo e multifacetado. A cultura não está apenas nas manifestações artísticas, ela está no cotidiano, nos saberes, fazeres, nas conexões, nos encontros, nas formas, nos formatos. E ela, como tantos outros periféricos, precisou entender isso muito cedo, no caminho da escola ou do trabalho, dentro de um ônibus ou barco lotados de outros periféricos. Um lugar, ou não-lugar, como imaginou Marc Augé.
“A cultura também é a forma como a gente se relaciona com o meio ambiente. Então, se a gente dá mais ou menos atenção, mais ou menos importância, isso também pode ser transformado através da cultura. Isso também pode ser transformado através da educação climática. Falar das duas coisas juntas é também falar da educação climática, porque as coisas não precisam ficar do jeito que estão, porque isso foi um projeto montado por alguém. Então a gente pode pensar em um outro projeto político”, explica a campeã climática da COP30.
Essa desconexão entre cultura e quaisquer outros âmbitos das nossas vidas perpassa pela negação, pela desinformação. “Mas não existe uma forma mais eficaz para falar com as pessoas do que através da arte e da cultura. Quando você fala com uma pessoa através da arte e da cultura, você toca em outro lugar”, completa Marcele.
O papel da cultura, então, é o de agente impulsionador. Ela aciona, mobiliza, acessa outros lugares. Por isso, também, não havia lugar mais simbólico para a realização da COP das Baixadas e da Cidade da Juventude do que o Curro Velho, que há mais de 30 anos vem formando crianças, jovens e adultos não apenas para as práticas artísticas, mas para a vida em coletividade e pela defesa do território. Muitos agentes sociais que que atuam como lideranças e despontam em diferentes áreas do saber e do saber fazer, foram “crias” do Curro Velho, que hoje padece com o descaso.
“A gente conecta não só através do problema, mas através da resistência, da solução, das atividades e práticas culturais periféricas que se relacionam. E isso faz com que mais pessoas tenham interesse em estar de olho, em estar antenadas, em falar sobre a conferência do clima que vai acontecer aqui, mas também sobre a mudança climática no dia a dia. Então é assim como cultura e meio ambiente se relacionam: a forma como a gente olha para o meio ambiente é cultural. Agora a gente precisa fazer uma virada cultural e colocar o meio ambiente no centro do debate”, conclui Marcele.
