
Por Kelvyn Gomes/Imagem: Neilton
No próximo sábado, 13 de setembro, estreia o projeto “Barrigada: Negritude em Cena, Quilombo em Diálogo”, uma iniciativa que une arte, educação e protagonismo quilombola. Idealizado pelo artista de teatro Ysmaille Ferreira, o projeto circula por comunidades quilombolas do Pará e por Belém, com apresentações teatrais, rodas de conversa e oficinas de redação voltadas para jovens que se preparam para o Processo Seletivo Especial (PSE) Quilombola da UFPA.
A peça principal, “Barrigada”, é inspirada na pesquisa de Rosilene Lopes, liderança do quilombo Pirucaua, que reuniu memórias de mulheres rezadeiras, agricultoras e universitárias de sua comunidade. A dramaturgia, dirigida por Ferreira e Mar Oliveira, é interpretada pelas atrizes Aline Lopes e Gisele Lopes, também da comunidade, e se passa durante a festividade de Nossa Senhora de Fátima, misturando religiosidade, conflitos e ancestralidade. O nome do projeto nasceu de uma expressão usada por dona Benedita, liderança quilombola, que ao contar suas histórias mencionou “teve uma barrigada aí”, aludindo ao nascimento de pessoas na comunidade, uma metáfora para os novos caminhos que o projeto propõe.
Outro espetáculo da programação é o solo “Maiô Imaculado”, no qual Ysmaille Ferreira revisita a vida de sua avó, Oscarina Ferreira Lopes, mulher negra amazônida que enfrentou racismo e pobreza, e que se alfabetizou na velhice. O enredo mistura religiosidade, afetos e resistência, tendo como símbolo um maiô, peça de roupa que remete à força e delicadeza de sua trajetória.
Além das apresentações, o projeto promove oficinas de redação conduzidas pela professora Janete Borges, com mais de 28 anos de experiência no ensino de Língua Portuguesa e em trabalhos voltados às culturas indígenas e afro-brasileiras. As oficinas acontecem nos dias 28 de setembro e 5 de outubro, na Comunidade Santa Maria de Muirateua, e ajudam os jovens a refletirem sobre temas como identidade, território e racismo estrutural, temas frequentemente cobrados no PSE Quilombola.
Para Ferreira, o projeto é um convite à escuta e ao reconhecimento de narrativas historicamente silenciadas. “Durante muito tempo, a arte representou majoritariamente os brancos e os europeus. Aqui, buscamos mostrar que o teatro pode contar as histórias de pessoas que foram invisibilizadas”, afirma.
A programação inclui ainda uma mesa com as lideranças Rose e Benedita, que falarão sobre o protagonismo das mulheres quilombolas e a importância de fortalecer a autoestima dos jovens em formação.
