Portal Jambu

Por Kelvyn Gomes/ Imagem: Walda Marques

Entre tradição e modernidade, a banda instrumental URU’BU, formada em 2019, mistura sonoridades para musicalizar a história dos encantados amazônicos. Uma narrativa musical da cultura, história e vivências amazônicas. O Portal Jambu te leva agora para conhecer mais sobre esse trabalho em uma entrevista com o trio de guitarra, bateria e baixo comandados por João Pedro, Ricardo Silva e Neyvicton.

A proposta surgiu do desejo de traduzir em música as histórias que os artistas cresceram ouvindo sobre os encantados da Amazônia. “A URU’BU nasceu quando começamos a experimentar a ideia de dar forma musical às narrativas que fazem parte do nosso cotidiano. Essas histórias abriram caminhos para compreender os mistérios e a força simbólica dos encantados, e nos impulsionaram a criar uma estética sonora que unisse essa ancestralidade à linguagem contemporânea”, explicam os músicos.

O som da URU’BU é construído a partir da fusão de rock, psicodelia e um toque de rock progressivo, em diálogo com os sons da floresta. Cada faixa é pensada como uma atmosfera, desde o assobio da Matinta, o chamado do Boto, os passos do Curupira na mata e a imponência da Cobra Grande. “Ao transformar essas histórias em música instrumental, buscamos traduzir atmosferas e sentimentos em vez de palavras. Cada faixa se torna um portal sensorial: a percussão ecoa como o coração da floresta, a guitarra cria texturas que lembram vento e água, o baixo e a bateria sustentam o pulso da terra”, contam os integrantes da banda.

A resposta do público não tardou. “Muitas pessoas nos dizem que, ao ouvir as músicas, sentem imagens surgindo em suas mentes, como se estivessem dentro da floresta ou frente a frente com os encantados. Outros relatam a sensação de estar em um ritual. É exatamente isso que buscamos, abrir portais para o imaginário amazônico”, destacam os artistas.

O próprio nome da banda carrega um gesto simbólico. URU’BU, do tupi uru’wu (“grande ave negra”), busca inverter a visão negativa associada à ave. “O urubu é muitas vezes injustiçado no imaginário popular, mas na natureza exerce um papel essencial: purifica, equilibra e renova. Ao escolher esse nome, queremos revelar sua verdadeira força e liberdade. Nossa música segue essa lógica: encontrar beleza e potência onde muitos não enxergam”, explicam.

Além da sonoridade, os músicos se preocupam em criar uma experiência estética que atravesse o campo visual. A primeira logomarca foi criada pelo artista Kambô, enquanto a arte atual leva a assinatura de Cristiano Suárez, ampliando o universo conceitual do grupo. A fotógrafa Walda Marques registrou a imagem oficial da banda, que eles consideram a tradução, em fotografia, da intensidade e da aura que cercam o projeto. “Pensamos a URU’BU como uma experiência que vai além da música. Imagem e som conversam entre si para criar um imaginário único, onde floresta, mitos e cidade se encontram. Cada detalhe faz parte do encantamento”, dizem os músicos.

Disco de estreia com produção de Félix RobattoLançado este ano e disponível em todas as plataformas digitais, o primeiro disco da banda, produzido pelo músico paraense Félix Robatto, vencedor do Grammy Latino com Gaby Amarantos, o trabalho é fruto de uma parceria que os integrantes descrevem como transformadora. “Trabalhar com o Félix foi uma honra e uma escola. Ele soube lapidar nossas ideias sem tirar delas a essência, trazendo equilíbrio entre a experimentação e a clareza. Sua escuta atenta abriu caminhos para que o disco tivesse a força que merecia”, relatam.

O álbum também contou com a participação de Renato Sinimbú, responsável pelo órgão, sintetizadores e efeitos que expandem as texturas sonoras do grupo.

Como uma ave, um projeto em movimento

A URU’BU encara a música instrumental não como limitação, mas como desafio inspirador. A ideia é unir a liberdade do som sem palavras à riqueza simbólica da Amazônia. O grupo planeja lançar um videoclipe para cada faixa do disco, reforçando o diálogo entre música e imagem.

Para os músicos, o objetivo maior é compartilhar com o público a experiência de estar diante dos encantados. “Se ainda não ouviu nosso disco, sinta a correnteza. Se já ouviu, deixe-se levar outra vez. Cada nota é uma travessia, cada melodia abre um portal para os segredos da floresta”, convidam.

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