
Por Aldrin Moura de Figueiredo/Imagem: Acervo IHGP
Em meio as inúmeras obras que estão acontecendo em Belém, uma aparentemente discreta não tem recebido a atenção que devia dos órgãos responsáveis pela preservação e salvaguarda do patrimônio histórico da capital do Pará. A demolição de uma casa no número 64, da rua Tomázia Perdição, em plena Praça D. Pedro II, vizinha de parede e janela do Solar Barão de Guajará, sob responsabilidade da Assembleia Legislativa do Pará. Muitas ilegalidades nesse projeto, pois, segundo a legislação vigente, a casa não poderia ser demolida integralmente, e muito menos no local se levantar uma edificação moderna com 3 pavimentos, que fere o gabarito e da ambiência do centro histórico e, além disso, muito mais grave ainda, causar sérios prejuízos ao Solar Barão de Guajará, que está sofrendo com infiltrações na parede lateral e corre o risco de ter vedada uma janela lateral do prédio que está ali há mais de 200 anos, isso mesmo, dois séculos.
O espaço é pequeno para falar da importância desse prédio, tombado nas três instâncias de salvaguarda (municipal, estadual e federal) e do seu entorno, que infelizmente, a ALEPA, como parlamento estadual, não tem dado a importância devida, desrespeitando regras patrimoniais e o passado histórico do Pará, que tanto deveria zelar.
Este solar é em si o mais importante testemunho civil sobrevivente do antigo Grão-Pará e do nascimento da nação. Sabemos que seus alicerces foram levantados no último quartel do século XVIII, ao tempo que seu primeiro proprietário, o sargento e engenheiro militar Theodosio Constantino Chermont, atuava no processo de “desaguamento” do alagado do Piry Legado ao filho, Theodosio Constantino Chermont Filho, passou depois para a neta, dona Inês Micaela de Larcerda Chermont.
Aí começa a história de fausto dessa residência do mais expressivo valor histórico, artístico e arquitetônico. Dona Inês transfere a casa para o irmão, Antônio Lacerda de Chermont (1806-1879), o Visconde do Arary, um dos homens mais importantes do Grão-Pará de seu tempo, militar, fazendeiro, proprietário de terras na Ilha de Marajó, que alcançou a patente de comandante-superior da Guarda Nacional e a presidência da província do Pará, de 1866 a 1868, tomando parte decisiva no processo de abertura do Rio Amazonas à Navegação Internacional, questão que foi amplamente discutida no salão de honra da casa.
O assunto é longo, mas basta dizer que o Visconde fez grandes melhoramentos em sua residência, mandando colocar os azulejos portugueses que ornam a frente do prédio e tratou do jardim do pátio interno. Ali nasceram os 11 filhos do Visconde do Arary com sua mulher, dona Catarina Pereira Leite Chermont, viscondessa do Arary. Entre os filhos, lembro aqui Justo Leite Chermont, o primeiro governador do Pará Republicano; o banqueiro e empresário Antônio Leite Chermont, o ministro e embaixador Epaminondas Leite Chermont, o deputado federal Pedro Leite Chermont, o tabelião e jurista Theodósio Constantino de Lacerda Chermont, o comerciante e agente fiscal de impostos Bento Leite Chermont.
Todos se casaram, e assim como suas irmãs, fizeram fortuna, e também ganharam destaque no cenário nacional e internacional. Tanto que, já velho, o Visconde do Arary passou o Solar para sua sobrinha, dona Maria Victoria Pereira de Chermont Rayol, baronesa do Guajará, casada com Domingos Antonio Raiol, advogado, político e o mais importante historiador da Amazônia no século XIX. Aí o Solar começa outra fase ligando sua história definitivamente aos barões do Guajará.
Na década de 1940, a Intendência de Belém adquire o prédio de Pedro Raiol, filho do barão e o prefeito Aberlado Conduru passa para o Instituto Histórico e Geográfico do Pará, instituição fundada em 1900, sob a presidência do próprio Barão do Guajará, sob o patronato de Lauro Sodré. Nos últimos 125 anos, o IHGP tem preservado heroicamente esse prédio, sem dotação alguma nem do município e nem do Estado, e apenas com a contribuição de seus sócios. Ali estão guardadas algumas joias da história e da cultura do Pará e da Amazônia, um rico arquivo, um museu e duas bibliotecas, incluindo a pessoal do Barão de Guajara. Parte desse acervo está em exposição, que, nos últimos dias, infelizmente, por conta dos estragos causados por essa obra tivermos que tirar da Galeria Imperial, como o retrato de D. Pedro I, de autoria de Manoel Pastana, que corria perigo por conta da infiltração, e objetos litúrgicos da capela interna.
É necessário que a ALEPA reveja esse projeto urgentemente, respeite a legislação vigente, mantenha o recuo de parede de 1,5 meio e preserve a janela lateral do Solar. Com boa vontade, essa iniciativa inclusive daria melhor salubridade e conforto térmico aos dois prédios, com um saguão, quiçá um pequeno “jardim de inverno”.
Só lembro aqui do velho Antônio Lemos, que em 1897, ao assumir a intendência de Belém passou a advogar contra essas obras de casas de paredes geminadas que tanto problema causam na própria manutenção e preservação dos imóveis. O caso é gravíssimo, urgente e requer intervenção do Ministério Público Federal e dos órgãos responsáveis: IPHAN, DEPHAC, SEMCULT, SEZEL, CREA, CAU. É necessário boa vontade e respeito com o patrimônio e com a história de Belém, do Pará e da Amazônia.
