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Por Izabela Chaves/Imagem: Reprodução Acervo Pessoal

Em Berlim, especialmente após a queda do Muro em 1989, bairros como Kreuzberg e Friedrichshain tornaram-se zonas de criação e conflito. Prédios abandonados foram ocupados por coletivos de artistas, punks, migrantes e ativistas que buscavam viver de outra forma ( longe das lógicas do mercado imobiliário, da vigilância do Estado e das instituições tradicionais da cultura). Esses espaços, ao invés de serem apagados ou criminalizados, foram em muitos casos incorporados ao tecido simbólico e turístico da cidade.

Reprodução Acervo Pessoal

Um exemplo marcante é o Haus Schwarzenberg, que visitei durante minha passagem por Berlim. Escondido num beco grafitado e pixado próximo à movimentada Rosenthaler Straße, no bairro de Mitte, o lugar é uma ilha de resistência cultural no centro da cidade. Muros cobertos por arte urbana dividem espaço com centros culturais autônomos, um pequeno cinema, ateliês, livrarias independentes e o Museu da Anne Frank. É um lugar que pulsa vida criativa e mostra como espaços ocupados e autogeridos podem preservar a memória, acolher a diversidade e cultivar a arte fora da lógica do consumo.

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Já em Praga, a história do Muro Lennon revela a força simbólica da arte como desobediência civil. Surgido nos anos 1980, em plena repressão de um regime autoritário, o muro foi sendo preenchido por mensagens de paz e liberdade inspiradas nas letras dos Beatles, pintadas por jovens que se recusaram a silenciar. Mesmo quando as autoridades apagavam as intervenções, elas reapareciam. Era uma forma de reexistência coletiva, gráfica e poética.

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Esses exemplos nos mostram como os espaços urbanos podem ser vivos, em constante reinvenção. Mas isso exige que se pense o patrimônio público não como um relicário fechado à chave, mas como algo que só faz sentido quando é vivido pelo povo. Em Belém, o que se vê muitas vezes é o contrário: uma cidade com um olhar ainda colonizado, marcada por uma mentalidade provinciana, ocorrendo várias tentativas de expulsão e higienismo. Há uma desconexão evidente entre a ideia de patrimônio oficial e o sentimento popular de pertencimento. Grande parte da população não se vê representada nas estruturas tradicionais que foram sim elitizadas por séculos. E isso não é por falta de interesse, mas por um histórico de exclusão. A política patrimonial, muitas vezes, foi construída para preservar uma memória branca, colonial e europeizada, enquanto a cultura popular foi tratada como barulho, bagunça ou ameaça.

Vale lembrar que em Belém, o carimbó chegou a ser proibido por lei, acusado de causar desordem. Hoje, o ritmo é Patrimônio Cultural Brasileiro, o que não apaga o histórico de criminalização e repressão à expressão popular e muita gente desconhece esse fato. Acha que as manifestações populares como tecnomelody, as aparelhagens e as lambadas já nasceram nas casas dos belenenses. Desconsiderando momentos históricos de preconceitos entre o que era culto ou não, o que poderia estar em determinado espaço ou não. A mesma coisa que temos acompanhado sobre o pixo que foi feito em um casarão histórico recém revitalizado. Não se trata aqui de julgar o que é certo ou errado, o que é arte ou não, se é bom ou ruim. Mas abrir espaço para que esses questionamentos não sejam feitos com base apenas numa ideia moral.

O debate sobre o uso do espaço público e a preservação do patrimônio por aqui é atravessado por desigualdades históricas. E o problema não está apenas na forma como o poder público conduz essas questões, mas também em como parte da gestão pública que alimenta discursos punitivistas e espetaculariza o conflito. É legítimo querer que nosso patrimônio seja preservado, valorizado e cuidado. Mas nada disso se resolve em seis meses, muito menos com discursos de ordem que só aprofundam a cisão entre artistas e instituições. Falta escuta, diálogo real e vontade política de pensar a cidade como um território múltiplo e permeada por conflitos que não se findarão, porque vivemos em múltiplas culturas, sociedades e Belém é sim um território marcado por elas. 

Por isso, trago exemplos de experiência que tive fora do Brasil, mas cito aqui, o Museu do Reggae, em São Luís do Maranhão e o Museu das Favelas, em São Paulo, que se tornaram  referências importantes. Eles propõem  esse chamado para que as pessoas sintam-se mais pertencentes a certos espaços que outrora foram elitizados,  colocando no centro aquilo que sempre foi marginalizado: o batuque, a favela, o grafite, o corpo preto e periférico como produtor legítimo de cultura e memória. Inclusive, acredito que espaços como esses, sejam mais atrativos para fazer do centro algo mais vivo e dinâmico. E ainda não são existentes, seria lindo um museu das aparelhagens e todo o universo que gira em torno desse movimento.

Por fim, apostar na repressão como solução apenas aprofunda a exclusão e a tensão entre artistas e poder público. Multas, prisões e remoções não criam vínculos nem respeito; pelo contrário, alimentam um ciclo infinito que já perdura há tempos uma crise silenciosa sobre diversos movimentos artísticos em Belém: O não diálogo. O verdadeiro caminho passa por políticas de escuta, mediação cultural e reconhecimento da diversidade de expressões, criando pontes entre as diferentes formas de ocupar e reinventar a cidade. Afinal, mesmo em uma época que o carimbó foi criminalizado e punido, ele sobreviveu com ou sem tutela, não é?

Izabela Chaves é graduanda de cinema e audiovisual pela Universidade Federal do Pará, Técnica em Comunicação Social Rádio e TV e Educadora Popular.

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