Por Kelvyn Gomes/Imagem: Pedro Guerreiro
Em 2015, Belém foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como uma das cidades criativas da gastronomia mundial. Na última semana, a revista Lonely Planet indicou a capital paraense como uma das “cidades gastronômicas mais irresistíveis”, ocupando a sétima posição. Estão entre esses sabores o açaí, fruto do açaizeiro, palmeira amazônica largamente difundida na região, que caiu no gosto do brasileiro e do mundo.
Mas o fruto amazônico faz parte da tradição e da cultura alimentar da região. E para compreender essa relação, conversamos com o antropólogo Miguel Picanço, que nos convida a olhar para o açaí não apenas como fruto, mas como símbolo.
Para ele, comer açaí é um ato cultural e político, que carrega saberes antigos sobre a natureza e seus ciclos. Segundo o antropólogo, originalmente a cadeia produtiva do açaí os ritmos da natureza, onde o plantio era feito pelos ventos, pelos animais ou pelas águas. “A princípio, é preciso compreender o gosto do paraense pelo açaí como uma construção sociocultural, herdado dos povos ancestrais. Colhia-se o açaí naturalmente plantado, sem ação humana, ou seja, sem qualquer dano ambiental”.
Essa relação ancestral, porém, está sob ameaça. A busca por exportação tem imposto uma nova lógica à produção do fruto. “Infelizmente, a produção de hoje tem se aproximado cada vez mais das lógicas do agronegócio, e os impactos disso já sabemos muito bem quais são”, alerta o pesquisador.
O açaí, que por muito tempo foi comida de “gente pobre”, hoje é consumido em academias como bebida energética. Foi gourmetizado, ganhando novas roupagens. Ainda assim, resiste. Miguel destaca o contraste entre o que se consome em Belém e o que se exporta para outros estados e países. “Em Portugal, por exemplo, é como sorvete que o açaí se apresenta, caindo no gosto, principalmente dos jovens portugueses. Para o paraense, particularmente o da classe trabalhadora, o açaí é comida. É quase improvável concebê-lo como bebida”.
Apesar da ressignificação, aqui, o açaí continua sendo a mistura de sabor e memória. As lamparinas vermelhas, principalmente nas periferias da cidade, indicam que “ainda tem açaí”. O fruto está presente nas mesas das famílias, fomenta renda e movimenta a economia social. Os batedores de açaí, muitas vezes invisibilizados, são personagens centrais dessa engrenagem. “Falar de açaí é falar de uma cultura alimentar que funciona como a carteira de identidade dos paraenses”, afirma.
Mas essa identidade está ameaçada não só pela lógica de mercado, como também pelo preço. Durante o inverno amazônico, fora da safra, o litro do açaí dispara. A ausência do fruto impacta diretamente o cotidiano das famílias paraenses. É nesse momento que as pessoas traçam estratégias para não ficar sem consumir a bebida. “Para se proteger da ameaça do preço, os paraenses elaboraram uma estratégia: a chula ou churela, a água da lavagem dos caroços do açaí, que é adicionada ao fruto para fazê-lo render”, explica o antropólogo.
Entre as bacias, cuias e farinha, Belém carrega no açaí uma história viva que pulsa nas periferias, nas feiras e nos quintais. E se hoje a cidade brilha no mapa da gastronomia mundial, é preciso lembrar que esse brilho reflete um colorido especial, com a cor roxa, cheiro de terra molhada e gosto de ancestralidade.
